domingo, 23 de maio de 2010

O Mal-estar na Cultura (Das Unbehagen in der Kultur)

Alguns trechos do livro, escrito em 1929 e publicado pela primeira vez em 1930:

(p.41) É impossível escapar à impressão de que os seres humanos geralmente empregam critérios equivocados, de que ambicionam poder, sucesso e riqueza para si mesmos e os admiram nos outros enquanto menosprezam os verdadeiros valores da vida. No entanto ao efetuar qualquer juízo geral desse tipo, corre-se o risco de esquecer a variedade do mundo humano e de sua vida psíquica.

(p.56) Quanto às necessidades religiosas, parece-me imperioso derivá-las do desamparo infantil e do anseio da presença paterna que ele desperta, tanto mais que esse sentimento não se prolonga simplesmente a partir da vida infantil, mas é conservado de modo duradouro pelo medo das forças superiores do destino.
(p.56) A origem da atitude religiosa pode ser seguida nitidamente até o sentimento de desamparo infantil.

(p.58) O Homem comum entende por sua religião, o sistema de doutrinas e promessas que, por um lado, lhe esclarece os enigmas deste mundo com invejável completude e, por outro, lhe assegura  que uma Providência cuidadosa zelará por sua vida e numa existência no além, compensará eventuais frustrações. O Homem comum não consegue imaginar essa Providência de outro modo a não ser na pessoa de um pai grandiosamente elevado. Somente um pai assim é capaz de conhecer as necessidades da criança humana, compadecer-se com as suas súplicas, apaziguar-se com os sinais de seu arrependimento. Isso tudo é tão manifestadamente infantil, tão alheio à realidade, que se torna doloroso para uma mentalidade humanitária pensar que a grande maioria dos mortais nunca se elevar acima dessa concepção de vida.

(p.61) A questão da finalidade da vida foi colocada inúmeras vezes; Jamais se obteve uma resposta satisfatória e talvez nem sequer a admita...  (...) parece, antes,  que temos o direito de deixar tal pergunta sem resposta. Seu pressuposto parece ser aquela arrogância humana da qual já conhecemos tantas manifestações. Não se fala de uma finalidade da vida dos animais, a não ser que seu destino consiste em servir ao homem. (...)  o que os próprios seres humanos, através de seu comportamento, revelam ser a finalidade e o propósito de suas vidas? O que exigem da vida, o que nela querem alcançar? È difícil errar a resposta:  eles aspiram à felicidade, querem se tornar felizes e assim permanecer. Toda permanência de uma situação anelada pelo princípio do prazer fornece apenas uma sensação tépida de bem-estar; somos feitos de tal modo que apenas podemos gozar intensamente o contraste e somente muito pouco o estado.

(p.65) ( ...) todo sofrimento é apenas sensação, existe apenas na medida em que o percebemos, e apenas o percebemos em conseqüência de certas disposições de nosso organismo.

(p.66) O êxito dos tóxicos na luta pela felicidade e no afastamento da desgraça é tão apreciado como benefício que tanto indivíduos como povos lhes concederam um lugar fixo na sua economia libidinal.

(p.72)  É particularmente digno de nota o caso em que um grande número de pessoas empreende conjuntamente a tentativa de obter garantias de felicidade e proteção contra o sofrimento mediante uma transformação delirante da realidade. E quem toma parte do delírio obviamente nunca o reconhece como tal.
Como última técnica de vida, que ao menos lhe promete satisfações substitutivas, oferece-se a ele a fuga para a doença neurótica, na maioria das vezes já efetuada na infância.


(p.80) ( ...) as três fontes donde provém nosso sofrimento: O poder superior da natureza, a fragilidade de nosso próprio corpo e a deficiência das disposições que regulam os relacionamentos dos seres humanos, na família, no estado e na sociedade.

(p.81) (... )topamos com uma asserção que é tão espantosa que queremos nos deter nela. Segundo tal asserção, uma grande parte da culpa pela nossa miséria é de nossa chamada cultura; seríamos muito mais felizes se desistíssemos dela e retornássemos as condições primitivas. É certo que pertence justamente a essa mesma cultura tudo aquilo com que tentamos nos proteger da ameaça oriunda das fontes de sofrimento.

(p.109) O desleixo da linguagem no emprego da palavra “amor” encontra uma justificativa genética. É chamada de amor a relação entre um homem e uma mulher que em razão de suas necessidades genitais fundaram uma família, mas também recebem esse nome os sentimentos positivos entre pais e filhos e entre os irmãos na família, embora tenhamos que descrever essa relação como amor de meta inibida, como ternura. Em suas origens o amor de meta inibida foi plenamente sensual, e ainda continua a sê-lo na inconsciente do homem. Ambos,  o amor plenamente sensual e o amor de meta inibida, estendem-se além da família e produzem novas ligações com pessoas até então estranhas, O amor genital leva à formação de novas famílias, o de meta inibida, a “amizades” que se tornam culturalmente importantes porque escapam a algumas limitações do amor genital – por exemplo, à sua exclusividade. Mas a relação do amor com a cultura, perde o seu caráter inequívoco no decorrer do desenvolvimento. Por um lado, o amor se o0põe aos interesses da cultura; por outro, esta ameaça o amor com sensíveis limitações.

(p.110) (...)  uma das principais tendências da cultura é aglomerar os seres humanos em grandes unidades. A família, porém, não quer largar o indivíduo.

(p.113) (...) A cultura atual (1929)  deixa claro que apenas permitirá relações sexuais sobre a base de um compromisso único, indissolúvel, entre um homem e uma mulher, que não aprecia a sexualidade como fonte independente de prazer e que apenas está disposta a tolerá-la como fonte até agora insubstituível para a reprodução humana. Isso é um extremo, obviamente. É sabido que se mostrou irrealizável, mesmo por curtos períodos. Somente os fracotes se submeteram a um roubo tão considerável de sua liberdade sexual; 

(p.115)  Às vezes acreditamos perceber que não é apenas a pressão da cultura, mas algo na essência da própria função que nos nega a satisfação completa e nos impele para outros caminhos. Pode ser um erro; é difícil decidir.    (...) também o ser humano é uma criatura animal de inequívoca disposição bisexual. O indivíduo corresponde a uma fusão de duas metades simétricas, das quais, segundo a opinião de alguns pesquisadores, uma delas é inteiramente masculina e a outra, feminina. Também é possível que cada metade fosse originalmente hermafrodita.

(p.123) (...) o ser humano não é uma criatura afável e carente de amor que, no máximo, é capaz de se defender quando atacada, mas conta com uma cota considerável de tendência agressiva no seu dote de impulsos. Por esse motivo o próximo não é apenas um possível ajudante e um  possível objeto sexual, mas também uma tentação para se satisfazer nele a agressão, explorar sua força de trabalho se recompensá-lo, usá-lo sexualmente sem o seu consentimento, apropriar-se de seus bens, humilhá-lo, causar-lhe dor, torturá-lo e matá-lo.

(p.125)  A cultura precisa fazer de tudo para impor limites aos impulsos agressivos do homem...  Daí, portanto, o emprego de métodos que têm o propósito de estimular os homens a identificações e relacionamentos amorosos de meta inibida, daí a limitação da vida sexual e daí também o mandamento ideal que ordena amar o próximo como a si mesmo.

(p.126)  Os comunistas acreditam ter encontrado o caminho para a redenção do mal. (...) Caso a propriedade privada fosse abolida,  (...) visto que todas as necessidades estariam satisfeitas, ninguém teria motivo para ver no outro o seu inimigo; (...) Com a supressão da propriedade privada, a agressividade humana é despojada de um de seus instrumentos, (...) mas certamente não o mais poderoso. Quanto às diferenças de poder e de influência, das quais a agressão abusa para os seus propósitos, nada se modifica. A agressão não foi criada pela propriedade. (...) resta ainda o privilégio oriundo dos relacionamentos sexuais, que se tornará a fonte da mais intensa inveja e da mais violenta hostilidade entre os homens tornados iguais em todos os demais aspectos. Caso também se suprima esse privilégio por meio da completa liberação da  vida sexual, eliminando assim a família, embrião da cultura, é impossível prever quais os novos caminhos que o desenvolvimento cultural poderá trilhar;

(p.130) Se a cultura impõe sacrifícios tão grandes não apenas à sexualidade, mas também à tendência agressiva do homem, entendemos melhor que se torna difícil para ele ser feliz no âmbito da cultura. As coisas eram de fato melhores para o homem primitivo, visto que ele não conhecia qualquer restrição a seus impulsos. Em compensação, a segurança de gozar essa felicidade por longo tempo era muito pequena.  O Homem aculturado trocou uma parcela de possibilidades de felicidade por uma parcela de segurança. Não esqueçamos , porém, que na família primeva apenas o chefe gozava dessa liberdade de impulsos;  os demais viviam em opressão escrava.


(p.141) Acrescentamos que a cultura é um processo a serviço de Eros, que deseja reunir indivíduos humanos isolados, depois famílias, então tribos, povos e nações em uma grande unidade, a humanidade. Não sabemos por que isso tem de acontecer; essa é precisamente a obra de Eros.

(p.161) Visto que a cultura obedece a um ímpeto erótico interno que lhe ordena reunir os seres humanos numa massa intimamente coesa, essa meta só pode ser alcançada por meio de um reforço sempre crescente do sentimento de culpa. O que começou em relação ao pai se consuma em relação à massa.

O Mal-estar na Cultura
Sigmund Freud
Tradução do Alemão de Renato Zwick
191 páginas
L&PM. 

domingo, 2 de maio de 2010

A Infinita Fiadeira







Para Hannah
que tece
suas teias.

(A aranha atéia
Diz ao aranho na teia
O nosso amor
está por um fio!)

A aranha, aquela aranha, era tão única: não parava de fazer teias! Fazia-as de todos os tamanhos e formas. Havia, contudo, um senão: ela fazia-as, mas não lhes dava utilidade. O bicho repaginava o mundo. Contudo, sempre inacabava as suas obras. Ao fio e ao cabo, ela já amealhava uma porção de teias que só ganhavam senso no rebrilho das manhãs.
E dia e noite: dos seus palpos primavam obras, com belezas de cacimbo gotejando, rendas e rendilhados. Tudo sem fim nem finalidade. Todo o bom aracnídeo sabe que a teia cumpre as fatais funções: lençol de núpcias, armadilha de caçador. Todos sabem menos a nossa aranhinha, em suas distraiçoeiras funções.
Para a mãe-aranha aquilo não passava de mau senso. Para quê tanto labor se depois não se dava a indevida aplicação? Mas a jovem aranhiça não fazia ouvidos. E afaiatava, alfinetava, cegava os nós. Tecia e retecia o fio,  entrelaçava e reentrelaçava mais e mais teia. Sem nunca fazer morada em nenhuma. Recusava a utilitária vocação da sua espécie.
- Não faço teias por instinto.
- Então, faz porquê?
- Faço por arte.
Benzia-se a mãe, rezava o pai. Mas nem com preces. A filha saiu pelo mundo em ofício de infinita teceloa. E em cantos e recantos deixava sua marca, o engenho da sua seda. Os pais, após concertação, a mandaram chamar. A mãe:
-Minha filha, quando é que assentas as patas na parede?
E o Pai:
- Já eu me vejo em palpos de mim...
Em choro múltiplo, a mãe limpou as lágrimas dos muitos olhos enquanto disse:
- Estamos recebendo queixas do aranhal.
- O que é que dizem, mãe?
- Dizem que isso só pode ser doença apanhada de outras criaturas.
Até que se decidiram: a jovem aranha tinha que ser reconduzida aos seus mandos genéticos. Aquele devaneio seria causado por falta de namorado. A moça seria até virgem, não tendo nunca digerido um machito. E organizaram um amoroso encontro.
- Vai ver que custa menos que engolir mosca – Disse a mãe.
E aconteceu. Contudo, ao invés de devorar o singelo namorador, a aranha namorou e ficou enamorada. Os dois deram-se os apêndices e dançaram ao som de uma brisa que fazia vibrar a teia. Ou seria a teia que fabricava a brisa?
A aranhiça levou o namorado a visitar a sua coleção de teias, ele que escolhesse uma, ficaria prova de seu amor.
A família desiludida consultou o Deus dos bichos, para reclamar da fabricação daquele espécime. Uma aranha assim, com mania de gente? Na sua alta teia, o Deus dos bichos quis saber o que poderia fazer. Pediram que ela transitasse para humana. E assim sucedeu: num golpe divino, a aranha foi convertida em pessoa. Quando ela, já transfigurada, se apresentou no mundo dos humanos logo lhe exigiram a imediata identificação. Quem era o que fazia?
- Faço arte.
- Arte?
E os humanos se entreolharam, intrigados. Desconheciam o que fosse arte. Em que consistia? Até que um, mais velho, se lembrou. Que houvera um tempo, em tempos de que já se perdera memória, em que alguns se ocupavam de tais improdutivos afazeres. Felizmente, isso tinha acabado, e os poucos que teimavam em criar esses pouco rentáveis produtos – chamados de obras de arte – tinham sido geneticamente transmutados em bichos. Não se lembrava bem em que bichos. Aranhas, ao que parece.

Conto: A Infinita Fiadeira.

O Fio das Missangas
Mia Couto
Companhia das Letras

quinta-feira, 29 de abril de 2010

O filho eterno

Deparei com O Filho Eterno na lista das leituras obrigatórias para o vestibular da UFRGS, e lembrei que comprei o livro faz algum tempo e ainda não tinha lido. Depois de vasculhar algumas pilhas encontrei o livro do Cristóvão Tezza, sob um A Sombra do Vento, um A Menina que Roubava Livros e de um Menino do Pijama Listrado. Uma vez encontrado o fujão, a curiosidade foi tanta que comecei a lê-lo imediatamente. E não parei mais. O livro é bom. Vi que teve gente discutindo se é romance ou autobiografia. Acho que é um romance autobiográfico. Ponto. Porque não? Ele emociona ao descrever com muita sinceridade e sem ser ridículo, a relação de um pai e seu filho com Síndrome de Down, em muitas passagens lindíssimas e bem construídas como esta:



“Ao cruzar o palácio dos milagres do Hospital das Clinicas, aquela pobreza suja, estropiada, cristã, os molambentos em fila, a desgraça imemorial em busca de esmola, aqui e ali as ambulâncias de prefeituras do interior trazendo votos potenciais que se arrastam em muletas, o gado balançando a cabeça e contemplando no balcão uma cerca incompreensível e intransponível, cuidada por outra espécie de gado que carimba papéis e entrega senhas; o sétimo céu é algum corredor que dê em outra sala onde um apóstolo de branco estenderá a mão limpa e clara sobre as cabeças para promover a cura milagrosa – ele pensa em Nietzsche e no horror da misericórdia, a humilhação como valor, a humildade como causa, a miséria como grandeza. Pois o seu filho, confirmada a tragédia, nem mesmo a esse ponto (ele olha em torno) chegará, porque não terá cérebro suficiente para inventar um deus que o ampare e não terá linguagem para pedir um favor.”


Vale a pena lê-lo. Quando terminei, senti uma estranha sensação de felicidade por um pai que conseguiu, partindo dos primeiros sentimentos egoístas com relação ao filho, amadurecer até criar uma relação agradável e corajosa com seu filho menino eterno de 25 anos. Um pai que sentiu o quanto pode doer um olhar misericordioso. A vida apresenta as mesmas dificuldades tanto para os pais como para os filhos. Aprender juntos, cada um no seu ritmo, com respeito, foi a fórmula deles. Sem apelos melodramáticos o livro nos faz pensar. Os filhos da gente com essa idade já terão todos abandonados a segurança do ninho que criamos e estarão por aí neste mundão afora voando atrás de seus sonhos, ou dos nossos? Quando temos um filho no colo, temos a sensação, de que podemos realmente protegê-lo. Dá quase uma espécie de inveja. Quando sentimos orgulho dos nossos filhos, ou vergonha como no caso do personagem/autor, ou estamos querendo orgulhar-nos ou envergonhar-nos de nos mesmos. Só ser não basta? Afinal, não temos que ter orgulho nem vergonha, filhos são o que são. Podem ser lindos, inteligentes, fortes ou não, deficientes ou como quer que escolherem ser, uns irão ao mundo outros ficarão o nosso lado, mas todos são, quem sabe, eternos? Podemos ter orgulho, isso sim, de amá-los do jeito que são ou escolheram ser. Afinal, a quem queremos enganar. O mundo é tão difícil para nós quanto para nossos filhos.


O Filho Eterno
Cristóvão Tezza
Record

quarta-feira, 14 de abril de 2010

A Elegância do Ouriço

Num edifício habitado por figurões esnobes e prepotentes de Paris, a zeladora Renée, não hesita em bater a porta no nariz de quem quer que seja, mas esconde uma personalidade dócil, educada, apaixonada por arte e literatura. Oitava filha de camponeses do Fado, todos analfabetos, na escola logo aprendeu a ler, segundo ela foi seu segundo nascimento, mas escondia de todos, pois achava que ela não tinha esse direito. Outra personagem é Paloma, filha de um ministro de estado e de uma espécie de patricinha doutorada em letras e sua irmã mais velha acha que é filosofa e todos acreditam serem muito modernos e descolados. A menina enxerga a realidade por trás das fantasias burguesas de cada um e não consegue aceitar a forma como eles vivem, e decide que se não encontrar um sentido para a vida até o dia de seu aniversário de 13 anos, vai por fogo no apartamento e se suicidar. Com a chegada de um novo morador, um rico empresário japonês aposentado, o destino das duas aproxima-se e elas acabam descobrindo caminhos novos e surpreendentes. A história é muito boa e recheada de reflexões filosóficas e pertinentes. Renée é uma quase-cinderela cuja beleza poucos tem a capacidade de enxergar. A história é um quase-conto-de-fadas que nos ajuda a refletir sobre o tênue fio que mantém a nossa existência.


... “A civilização é a violência dominada, a vitória sempre inacabada contra a agressividade do primata. Pois primatas nós fomos, e primatas permanecemos, uma camélia sobre o musgo que aprendíamos a desfrutar. Aí está toda a função da educação. Que é educar? È propor incansavelmente camélias sobre o musgo, como derivativos à pulsão da espécie, que jamais para e ameaça continuamente o frágil equilíbrio da sobrevivência. Sou muito camélia sobre o musgo. Nada mais, pensando bem, seria capaz de explicar minha reclusão neste cubículo enfadonho. Convencida desde a aurora de minha vida de sua inanidade, eu poderia ter escolhido a revolta e, tomando o céu por testemunha da iniqüidade da minha sorte, explorando as fontes de violência que abundam na nossa condição. Mas a escola fez de mim uma alma cujo destino de vacuidade não levou apenas à renúncia e à clausura. O deslumbramento de meu segundo nascimento preparou em mim o terreno do domínio pulsional; já que a escola me fizera nascer, eu lhe devia fidelidade e, portanto, me conformei com as intenções de meus educadores, tornando-me com docilidade uma criatura civilizada. Na verdade quando a luta contra a agressividade do primata se apodera dessas armas prodigiosas que são os livros e as palavras, o negócio é fácil, e foi assim que me tornei uma alma educada, que extraía dos sinais escritos a força de resistir à própria natureza.


... Para que serve a arte? Para nos dar a breve, mas fulgurante ilusão da camélia, abrindo no tempo uma brecha emocional que parece irredutível à lógica animal. Como nasce a Arte? Nasce da capacidade que tem o espírito de esculpir o campo sensorial. Que faz a arte por nós? Ela dá forma e torna visíveis nossas emoções, e, ao fazê-lo, opõe o selo de eternidade presente em todas as obras que, por uma forma particular, sabem encarnar a universalidade dos afetos humanos.


... Acho que só há uma coisa para fazer: encontrar a tarefa para a qual nascemos e realizá-la o melhor possível, com todas as nossas forças, sem complicar as coisas e sem acreditar que há um lado divino na nossa natureza animal. Só assim é que teremos a sensação de estar fazendo algo construtivo no momento em que a morte nos pegar. A liberdade, a decisão, a vontade, tudo isso são quimeras. Acreditamos que podemos fazer mel sem partilhar o destino das abelhas; mas nós também não somos mais que pobres abelhas fadadas a cumprir sua tarefa e depois morrer.


... A literatura, por exemplo, tem uma função pragmática. Como toda forma de Arte, tem a missão de tornar suportável a realização de nossos deveres vitais. Para uma criatura que, como o humano, molda seu destino na base da reflexão e da reflexividade, o conhecimento que daí decorre tem o caráter insuportável de toda lucidez nua. Sabemos que somos animais dotados de uma arma de sobrevivência, e não deuses moldando o mundo com seu pensamento próprio, e é preciso algo para que essa sagacidade se torne tolerável, algo que nos salve da triste e eterna febre dos destinos biológicos. “


Elegância do Ouriço


Muriel Barbery


Companhia das Letras.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Tempo de Delicadeza

Tem um livrinho que gosto muito. Tempo de delicadeza do Affonso Romano Sant’ana. Sempre o recomendo para quem ainda não tenha lido. Não perca tempo. Leia logo. Tentei convencer a professora que revirava a livraria a procura de algo para ler enquanto esbravejava contra a governadora. Aguentar um bando de imbecis por essa mixaria! Certamente ela desistiu de ser professora, ou nunca foi. Só não sabe. O livrinho começa assim:


“Entre duas possibilidades, que caminho tomar?
Um dos poemas mais conhecidos da literatura norte-americana foi escrito por Robert Frost (1874-1963). É o famoso “The road not taken”, e foi traduzido pelo poeta português Antônio Simões com o título “O caminho que não tomei”. Está numa recente antologia onde ele verteu competentemente 112 poemas do inglês para nossa língua.
Entre duas possibilidades, que caminho tomar?
Pode ser entre dois amores, dois empregos, duas ruas, dois países. Pode ser uma encruzilhada qualquer. O fato é que a escolha é às vezes algo complicado. Tão complicado
que uns psicólogos norte-americanos criaram a “teoria da dissonância cognitiva” baseada nesse drama. Como escolhemos as coisas, seja uma geladeira, uma proposta, uma roupa, e que racionalizações fazemos para justificar a direção tomada?"


Se ela tivesse lido certamente pensaria melhor sobre suas escolhas. Não consegui meu intento e ela foi ser feliz com a Nora Roberts na bolsa. Precisava de algo para relaxar. Assim, fica posto que pensar continua doendo muito e fecho com mais um trecho do livrinho do Affonso.


"Sei que as pessoas estão pulando na jugular umas das outras.
Sei que viver está cada vez mais dificultoso.
Mas talvez por isto mesmo ou, talvez, devido a esse maio azulzinho, a esse outono fora e dentro de mim, o fato é que o tema da delicadeza começou a se infiltrar, digamos, delicadamente nessa crônica, varando os tiroteios, os seqüestros, as palavras ásperas e os gestos grosseiros que ocorreram nas esquinas da televisão e do cinema com a vida. (...)
Sei o que vão dizer: a burocracia, o trânsito, os salários, a polícia, as injustiças, a corrupção e o governo não nos deixam ser delicados.
– E eu não sei?
Mas de novo vos digo: sejamos delicados. E, se necessário for, cruelmente delicados."


Tempo de Delicadeza
Affonso Romano de Sant’ana.
L&PM. R$ 14,00.
Menos que uma recarga de celular.

quarta-feira, 3 de março de 2010

O Albatroz Azul

Bacana ver João Ubaldo Ribeiro dar a volta por cima e brindar-nos com mais uma de suas pérolas. No Albatroz Azul ele conta a história de Tertuliano que por ocasião do nascimento do neto e por achar que a hora da morte estivesse próxima, trata de por alguma ordem ou perspectiva à sua vida. A narrativa flui perfeita entre passagens maravilhosas e trechos deliciosos: “Foi até a gaveta onde guardava o caderno de anotações. Olhou o estojo dos lápis, que estava junto ao caderno, pegou-o como quem fosse usá-lo, logo desistiu. Não ia anotar nada, não havia o quê, nem para quem. Queimaria o caderno, como fez sempre com os outros, esfregaria com os pés suas cinzas ao chão, como sempre lhe dera prazer fazer. Pensou algum tempo em armar e acender a fogueirinha, mas acabou não pegando o caderno. Quem quisesse que o pegasse depois, não ia nem entender direito o que estava escrito. Recostou-se na cadeira, olhou em redor e achou engraçado seu ar involuntário de quem está conferindo tudo, como antes de uma viagem”.
Tertuliano revive a história da sua vida que ele achava tinha sido roubada, pois seu pai vivia com duas irmãs em casas separadas, e para receber herança propôs que Tertuliano, o filho mais velho, se declarasse filho da tia. Cada amigo que encontra para contar da proximidade da sua morte e do nascimento do neto, tem seu próprio linguajar como o barbeiro Nascimento, por exemplo: - “Anelava, pois, por uma palavra do Compadre sobre o tema em pauta, tópico do dia, sem a menor anfibologia ou equívoco. Vox populi, Vox dei, de maneira que não encarava com ceticismo, antes pelo contrário, a convicção popular de que o petiz desgravidado com o pousadeiro apontado na direção lunar desfrutaria de uma vida plena de êxitos e sem empeços dignos de nota.”
Tem personagens como a Zirinha: “.. ela mesma também estava acostumada a dizer coisas que o povo estranhava, mas estranhasse à vontade, que ela não ligava. O Homem podia enfiar seu como-é-o-nomezinho numa mulher, fazer-lhe um filho e desaparecer, mas a mulher tinha que carregar o menino no bucho aporrinhando nove meses, dar de mamar, limpar merda e padecer sobressaltos anos seguidos. Por que além disso tudo, tinha que se conformar com um pai só para todos os seus filhos? E se puxassem todos eles ao lado ruim do macho escolhido, como ficava a mulher?  Ficava velha e cercada de um farrancho de ordinários, empesteando seus últimos anos e lhe tomando tudo o que pudessem.”
O Albatroz Azul é um livro leve e agradável de ler sobre vida, morte, nascer e renascer, onde cada personagem tem suas próprias crenças, sonhos e angústias, sem tentar convencer o leitor de nada, apenas a boa e velha literatura.
O Albatroz Azul
João Ubaldo Ribeiro
Nova Fronteira

domingo, 28 de fevereiro de 2010

BBB


                    Assisto televisão de forma bastante passiva.  Quando ouço algo interessante vou até a sala da TV ver o que está acontecendo. Às vezes um telejornal ou algum filme. Ultimamente o BBB tem me atraído algumas vezes. Acho interessante ver o que as pessoas fazem por dinheiro.  Dinheiro que no mundo moderno quer dizer vida. Mas os telespectadores fazem parte do show. Moderno esse programa. Nunca se viu nada parecido no mundo. Muito original. Os polegares erguidos ou abaixados foram substituídos pelos telefones e internet. No mundo moderno ninguém precisa ir até a arena para assistir aos gladiadores. Até porque esse negócio de sair de casa é muito perigoso para o sistema. Vai que o cidadão fica um tempo trocando conversa com outro, e podem surgir idéias políticas e até uma revolução. Cuba só é Cuba porque o Che Guevara resolveu sair de casa. Se houvesse BBA (Big Brother Argentina) naquela época, Fulgêncio Batista seria O Cara ainda por muito tempo em Cuba. É melhor que todo mundo fique em casa. Mas mesmo assim é interessante assistir aos pobres infelizes participantes fazendo das tripas coração tentando adivinhar com suas limitadas inteligências o que poderia agradar mais aos telespectadores da arena global digitalizada. Como ratinhos, nadam desesperados tentando sobreviver e chegar ao dinheiro. Ao tão sonhado milhão e meio de vida. Por outro lado, tenho uma amiga que não gostou que o público deixasse determinado participante na casa. Ao modo de Lisístrata de Aristófanes, onde as mulheres das cidades em guerra fizeram uma greve de sexo até que seus homens parassem com a guerra ou na versão moderna como aquela esposa que não recebeu do marido o presente que queria e passou a negar-lhe sexo, minha amiga resolveu: -“Não assisto mais ao programa!” Agora quero só ver como a Globo vai se virar sozinha.

Sem ciência, preferimos crer na mentira alheia do que em nossa própria realidade

          Aqui comigo e em algumas conversas mentais com minha gata, eu nutria uma espécie de esperança de que mais cedo ou mais tarde os e...