segunda-feira, 4 de abril de 2011

O novo livro de Lya Luft

                                                      A Riqueza do Mundo
                                                                   Um trecho do novo livro de Lya Luft 
                                                                   que está disponível na livraria.


A mãe:
Que nossa vida, meus filhos, tecida de encontros e desencontros como a de todos, tenha por baixo um rio de águas generosas, um entendimento acima das palavras e um afeto além dos gestos — algo que só pode nascer entre nós. Que quando eu me aproximo, meu filho, você não se encolha nem um milímetro com medo de voltar a ser menino, você que já é um homem. Que quando eu te olho, minha filha, você nunca se sinta criticada ou avaliada, mas simplesmente adorada como desde o primeiro instante.
Que quando se lembrarem de sua infância, não recordem os dias difíceis, (vocês nem sabiam), o trabalho cansativo, a saúde não tão boa, o casamento numa pequena ou grande crise, os nervos á flor da pele... aqueles dias em que, até hoje arrependida, dei um tapa que até agora dói em mim, ou disse uma palavra injusta. Lembrem os deliciosos momentos em família, as risadas, as histórias na hora de dormir, o bolo que abatumou mas vocês pequenos comeram dizendo que estava maravilhoso.
Que pensando em sua adolescência não recordem minhas distrações, minhas imperfeições e impropriedades, mas as caminhadas pela praia, o sorvete na esquina, a lição de casa na mesa de jantar, a sensação de aconchego sentados na sala cada um com sua ocupação.
Que quando precisarem de mim, meus filhos, vocês nunca hesitem em chamar: Mãe! Seja para prender um botão de camisa, ficar com uma criança, segurar a mão, tentar fazer baixar a febre, socorrer com qualquer tipo de recurso, ou apenas escutar alguma queixa ou preocupação. Não é preciso constranger-se de serem filhos querendo mãe, só porque vocês também já estão grisalhos, ou com filhos crescidos, com suas alegrias e dores como eu tenho e tive as minhas.
Que independendo da hora e do lugar, a gente se sinta bem pensando no outro.
Que essa consciência faça expandir-se a vida e o coração, na certeza de que aquela pessoa, seja onde for, vai saber entender; o que não entender, vai absorver; o que não absorver, vai enfeitar e tornar bom.
Que quando nos afastarmos isso seja sem dilaceramento ainda que com passageira tristeza, porque todos devem seguir seus caminhos mesmo que signifique alguma distância: e que todo reencontro seja de grandes abraços e boas risadas. Esse é um tipo de amor que independe de presença e tempo. Que quando estivermos juntos, vocês encarem com algum bom humor e muita naturalidade se houver raízes grisalhas no meu cabelo, se eu começar a repetir histórias, e se tantas vezes só de olhar para vocês meus olhos se encherem de lágrimas: serão apenas de alegria porque vocês estão aí.
Que quando pareço mais cansada, vocês não tenham receio de que agora eu precise de mais ajuda do que vocês podem me dar: provavelmente não precisarei de mais apoio do que seu carinho, sua atenção natural e jamais forçada. E se precisar de mais que isso, não s e culpem se por vezes for difícil, ou trabalhoso ou tedioso, se lhes causar susto ou dor: as coisas são assim.
Que se um dia eu começar a me confundir, esse eventual efeito de um longo tempo de vida não os assuste: tentem entrar no meu novo mundo, sem drama nem culpa mesmo quando s e impacientarem.
Toda a transformação do nascimento à morte é um dom da natureza, e uma forma de crescimento.
Que em qualquer momento, meus filhos, sendo eu qualquer mãe, de qualquer raça, credo, idade ou instrução, vocês possam perceber em mim, ainda que numa cintilação breve, a inapagável sensação de quando vocês foram colocados pela primeira vez nos meus braços: misto de susto, plenitude e ternura, maior e mais importante do que todas as glórias da arte e da ciência, mais sério do que as tentativas dos filósofos de explicarem os enigmas da existência.
A sensação que vinha do seu cheiro, de sua pele, de seu rostinho, e da consciência de que ali havia, a partir de mim e desse amor, uma nova pessoa, com seu destino e sua vida, nesta bela e complicada terra.
 E assim sendo, meus filhos, vocês sempre terão me dado muito mais do que esperei ou mereci ou imaginei vir a ter.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Confirmado! Fabricio Carpinejar, Altair Martins e João Bosco Ayala estarão na abertura da 2.ª Semana do Livro de Guaíba

 A Literatura e os Relacionamentos De Romeu e Julieta ao Crepúsculo. 
Será o tema que nossos convidados abordarão na noite de abertura da 2ª Semana do Livro de Guaíba.
Dia 18 de abril, às 20 horas no
Museu Carlos Nobre.
 Entrada franca:

domingo, 13 de março de 2011

Se Eu Fechar os Olhos Agora



                                    Dois meninos ao nadar num lago encontram o corpo mutilado de uma mulher brutalmente assassinada. Eles vão à polícia que primeiro desconfia deles, mas liberta-os em pouco tempo, pois o marido da vítima apresenta-se e confessa o crime.
 
                                   Um dos meninos, já em casa, levanta uma suspeita: Como poderia uma mulher grande e forte como aquela, ser assassinada a facadas pelo marido que lhe pareceu tão baixinho e pequeno, frágil até?  Ingenuamente começam a investigar o crime, sem a menor noção de estarem entrando num universo de corrupção, perversidade, sexualidade doentia e exploração, em que uma menina, filha e neta de político influente e abandonada num orfanato é dada de presente para servir a propósitos doentios e perversos de parafilia.

                                    Auxiliados por um velho comunista, ex-preso político da ditadura de Getúlio Vargas, jogador de xadrez e morador de uma casa de repouso, tentam desvendar o mistério e os segredos que envolvem não apenas ricos e poderosos, mas também pessoas de todas as classes sociais da cidadezinha. Misturando romance policial, relatos juvenis e história política, aos poucos, o autor vai descortinando um universo obscuro de pessoas da sociedade local, da política e do clero, capazes de transformar uma menina  num objeto de uso de um grupo de insanos cidadãos acima de suspeitas.
 
                                 Se Eu Fechar os Olhos Agora, premiado com o Jabuti 2010, é um romance para ser lido de um fôlego só. Nos traz um retrato do Brasil dos anos 60, com homens e mulheres dispostos a tudo para manter seu status quo.  Edney Silvestre construiu uma trama ao mesmo tempo psicológica, histórica, eletrizante e comovente. Para não deixar de ler.

Se Eu Fechar os Olhos Agora
Edney Silvestre
Record

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Freud (Um trecho de “O Futuro de Uma Ilusão)

O futuro de uma Ilusão, publicado em 1927, tenta analisar porque o ser humano tem tanta necessidade de crenças religiosas. O texto quase centenário além de não perder sua atualidade, mostra-se cada vez mais vigoroso e relacionado aos dias de hoje.

… Tal como para a humanidade em seu todo, também para o indivíduo a vida é difícil de suportar. Uma cota de privações lhe é imposta pela cultura de que se faz parte; outra porção de sofrimento lhe é causada pelas demais pessoas, seja a despeito dos preceitos da  cultura, seja em consequência das imperfeições dela. A isso se acrescentam os danos que a natureza indomada – ele a chama de “destino” – lhe provoca. As consequências dessa situação teriam de ser um estado constante de angustiada expectativa e uma severa ofensa do narcisismo natural. Já sabemos como o indivíduo reage aos danos que lhe são causados pela cultura e pelos outros: desenvolve uma medida correspondente de resistência contra as instituições dessa cultura, de hostilidade a ela. Mas de que maneira ela se defende da prepotência da natureza, do destino, que o ameaça como a todos os outros?
A cultura o dispensa dessa tarefa, cuidando dela para todos de igual maneira; quanto a isso, também é notável que quase todas as culturas façam a mesma coisa. E ela não se detém na execução da sua tarefa de defender os homens da natureza, mas trata de continuá-la por outros meios. A tarefa, aí, é múltipla: o orgulho gravemente ameaçado de homem exige consolo; o mundo e a vida devem ser despojados de seus pavores; e, ao mesmo tempo, a curiosidade humana, sem dúvida impulsionada pelos mais poderosos interesses práticos, também quer uma resposta.
Já se conseguiu muito com o primeiro passo. E esse consiste em humanizar a natureza. Forças e destinos impessoais são inacessíveis, permanecem eternamente estranhos. Porém, se nos elementos se agitam paixões tal como na própria alma; se mesmo a morte não é algo espontâneo, mas o ato de violência de uma vontade maléfica; se, na natureza, o homem está cercado em toda parte por entes iguais àqueles que conhece em sua própria sociedade, então ele respira aliviado, sente-se em casa em meio a coisas inquietantes e pode elaborar psiquicamente a sua angústia sem sentido.Talvez ele ainda esteja indefeso, mas não está mais desamparadamente paralisado; pode ao menos reagir, e talvez não esteja nem mesmo indefeso, pois pode servir-se contra esses violentos super-homens de fora dos mesmos expedientes de que se serve em sua sociedade: pode tentar lhes fazer súplicas, apaziguá-los, suborná-los, roubar-lhes uma parte de seu poder através de tal influência. Essa substituição de uma ciência da natureza pela psicologia não apenas proporciona alívio imediato, mas também mostra o caminho para um domínio posterior da situação.
Pois essa situação não é nova; ela tem um modelo infantil, e é, na verdade, apenas a continuação de uma situação antiga, pois uma vez o homem já se encontrou em tal desamparo: quando criança pequena diante de seus pais, os quais tinha razão para temer - sobretudo o pai -, mas cuja proteção contra os perigosos que então conhecia também estava seguro. É natural, assim, comparar as duas situações. E, tal como na vida onírica, o desejo também não sai prejudicado. Um pressentimento de morte acomete aquele que dorme, quer levá-lo ao túmulo; o trabalho do sonho, porém, sabe escolher as condições em que mesmo esse temido acontecimento se transforma na realização de um desejo: aquele que sonha se vê num antigo túmulo etrusco, ao qual desceu, contente, para satisfazer seus interesses arqueológicos. De modo semelhante, o homem não transforma as forças da natureza simplesmente em seres humanos com os quais pode se relacionar como faz com seus iguais - algo que também não faria justiça à impressão avassaladora que tem delas –, mas lhes confere um caráter paterno, transforma-as em deuses, e nisso não apenas segue um modelo infantil, mas, segundo já tentei mostrar certa vez, um modelo filogenético.
Com o tempo, são feitas as primeiras observações de regularidades e de leis nos fenômenos naturais, e, com isso, as forças da natureza perdem seus traços humanos. Mas o desamparo dos homens permanece, e, com ele, os deuses e o anseio pelo pai…

O Futuro de Uma Ilusão
Sigmund Freud
L&pm Editores

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

A Camareira



                                                
                                               Acredito ter um faro ou sei lá o que,  que me
impele a encontrar livros bons entre tantos lançamentos e novidades que aportam na livraria Entrelinhas todos os dias. Quando abri a caixa da L&pm Editores, A Camareira atraiu-me como se tivesse um ímã. Não resistí. A orelha me informou que o autor, do qual nunca tinha ouvido falar, Markus Orths é um guri de 42 anos, alemão,  com dez livros publicados e traduzidos para diversas linguas, muito premiado e festejado pelo mundo afora. Comecei a leitura na livraria mesmo, numa mesinha do café. Aos poucos fui entrando no mundo de Lynn, a camareira, que ao não se sentir normal parece
Markus estar disposta a aprender a viver e para isso tenta bisbilhotar os objetos dos hóspedes do hotel em que trabalha, chegando ao ponto de ficar escondida sob a cama em certos dias. A cada página aumenta o envolvimento do leitor com uma personagem só e indefesa num mundo que não a ajuda e nem a compreende.

Um trecho do imperdível A  Camareira:

                        Quando era criança, encontrou certa vez uma concha na praia, levou a concha para a mãe que estava estendida ali em trajes de banho, branca como um queijo sob o guarda-sol, com seu livro.
                        Uma concha, disse Lynn, encontrei uma concha.
                        A mãe disse, coloque-a sobre o ouvido.
                        E Lynn colocou a concha ao ouvido.
                        O que você ouve?, perguntou a mãe.
                        Um murmúrio, disse Lynn.
                        É o murmúrio do mar, disse a mãe, as ondas que estão presas na concha.
                        O mar?, perguntou Lynn.
                        O mar, disse a mãe, e continuaou a ler.
                        Como, pensou Lynn, como é que uma concha pode prender o mar, como pode algo tão pequeno e frágil como uma concha prender algo tão grande e indestrutível como o mar, as ondas do mar, o murmúrio do mar? E então levou a concha para seu quarto e a colocou sobre o criado-mudo, e, como não conseguia dormir,  ficou segurando a concha colada ao ouvido, olhando fixamente para a escuridão e ouvindo o rumor das ondas. Pegou o copo de água e o esvaziou, e só porque pegou o copo de água e o esvaziou pôde segurar o copo de água vazio na mão, e só porque colocou de repente sobre o ouvido, e só porque colocou o copo de água sobre o ouvido ouviu o mesmo murmúrio que ouvira da concha, as mesmas ondas, o mesmo vento. E Lynn recolocou o copo no lugar e atirou a concha no cesto de papéis, porque tinha de repente pressentido que tudo na vida é um engano.


A Camareira
Markus Orths
L&pm Editores

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Conto de Bukowski que está no livro "Ao Sul de Lugar Nenhum".

Você não consegue escrever uma História de amor

Margie ia sair com um sujeito, mas, no caminho, esse sujeito encontrou com outro que vestia um casaco de couro e o sujeito com casaco de couro abriu o casaco de couro e mostrou as tetas e o outro sujeito foi até a casa de Margie e disse que não poderia mais ir ao encontro, porque esse sujeito, vestindo um casaco de couro, havia lhe mostrado as tetas e ele ia trepar com esse sujeito. Então Margie foi até a casa de Carl. Carl estava em casa e ela se sentou e disse para Carl:
- Um sujeito ia me levar para um café com mesas na calçada e íamos beber vinho e conversar, só beber vinho e conversar, só isso, nada mais, mas no caminho para me encontrar, esse sujeito encontrou outro com um casaco de couro e o sujeito com o casaco de couro lhe mostrou as tetas e agora esse sujeito vai trepar com o sujeito com o casaco de couro e eu fico com a minha mesa e meu vinho e minha conversa.
- Não consigo escrever – disse Carl – Acabou-se.
Então ele se levantou e foi até o banheiro, fechou a porta e deu uma cagada. Carl cagava quatro ou cinco vezes por dia. Não havia mais nada a fazer. Ele tomava cinco ou seis banhos por dia. Não havia mais nada a fazer. Ficava bêbado pela mesma razão.
Margie ouviu a descarga da privada. Então Carl saiu do banheiro.
-Um homem simplesmente não consegue escrever oito horas por dia. Nem mesmo consegue escrever todo dia ou toda semana. É uma situação péssima. Não há nada a fazer além de esperar.
Carl foi até a geladeira e voltou com um pacote de seis garrafas de cerveja Michelob. Abriu uma garrafa.
-Sou o maior escritor do mundo - ele disse.  – Você sabe como isso é difícil?
Margie não respondeu.
- Posso sentir a dor rastejando por todo meu corpo. É como uma segunda pele. Queria poder me livrar dessa pele como cobra.
- Bem, por que você não se deita no tapete e tenta?
- Escute - ele perguntou - , onde foi que a conheci?
- Na Bodega do Barney.
- Bem, isso explica um pouco as coisas. Beba uma cerveja.
Carl abriu a garrafa e lhe entregou.
- É... - disse Margie - eu sei. Você precisa do seu isolamento. Você precisa ficar sozinho. Exceto quando quer trepar,  ou exceto quando nos separamos, então você me liga. Diz que precisa de mim. Diz que está morrendo por causa de uma ressaca. Você enfraquece rápido.
- Enfraqueço rápido.
- E fica tão inerte quando estou por perto, nunca se excita. Vocês escritores são tão... preciosos ... não  suportam pessoas. A humanidade  fede, certo?
- Certo.
-Mas toda vez que nos separamos você começa a fazer festas gigantes que duram quatro dias. E de repente você acorda, começa a FALAR! De repente fica cheio de vida, falando, dançando, cantando, dança em cima da mesa de café, joga garrafas pela janela, encena trechos de Shakespeare. De repente você está vivo... quando estou longe. Ah, fiquei sabendo de tudo!
- Não faço festas. Odeio ainda mais as pessoas nas festas.
- Para  um sujeito que odeia festas, certamente você organiza um bocado delas.
- Escute,  Margie, você não me entende. Não consigo mais escrever. Estou acabado. Em algum lugar tomei uma trajetória errada. Em algum momento, morri durante a noite.
- O único jeito de você morrer é numa dessas suas ressacas gigantescas.
- Jeffers diz que até mesmo o mais forte dos homens fica encurralado.
- Quem foi Jeffers?
- Foi um sujeito que transformou Big Sur numa armadilha para turistas.
- O que ia fazer essa noite?
- Ia ouvir as músicas de Rachmaninoff.
- Quem é?
- Um russo que já morreu.
- Olha pra você. Fica ai sentado.
- Estou esperando. Alguns sujeitos esperam por dois anos. Ás vezes a coisa nunca volta.
- E se nunca voltar?
- Apenas vestirei meus sapatos e descerei a rua principal.
- Por que não arranja um emprego decente?
- Não existem empregos decentes. Se um escritor não consegue sucesso através da criação, está morto.
- Ah, para com isso,Carl! Existem bilhões de pessoas no mundo que não atingem o sucesso pela criação.  Quer me dizer que elas estão mortas?
- Sim.
- E você tem uma alma? Você é um dos poucos que tem uma alma?
- Diria que sim.
- Diria que sim! Você e sua maquininha de escrever!  Você  e os seus cheques mirrados! Minha avó  ganha mais dinheiro que você!
Carl abriu outra garrafa de cerveja.
- Cerveja! Cerveja! Você e a porra da sua cerveja! Isso está nas suas historias também. ”Marty ergueu sua cerveja. Quando levantou os olhos, uma tremenda loira entrou no bar e sentou ao seu lado...” Você está certo. Está acabado. Seu material é limitado, muito limitado. Você não consegue escrever uma  historia decente de amor.
- Você esta certa, Margie.
- Se um homem não consegue escrever uma história de amor, ele é um inútil.
- Quantas você  já escreveu?
- Não digo que sou uma escritora.
- Mas - disse Carl - você parece posar como uma crítica literária infernal.
Margie, depois disso, foi logo embora. Carl ficou sentado e bebeu o resto das cervejas. Era verdade, a escrita o havia deixado. Isso deixaria algum de seus inimigos do subsolo felizes. Eles poderiam aumentar em um tento a marca dos inimigos abatidos. A morte os agradava, em cima ou embaixo da terra. Lembrou-se de Endicott, Endicott sentado dizendo:
- Bem, Hemingway se foi, Dos passos se foi, Petchen se foi, Pound se foi , Berryman pulou daquela ponte... as coisas estão parecendo cada vez melhores.
O telefone tocou. Carl atendeu.
- Sr. Gantling?
- Sim - ele respondeu.
- Gostaríamos de saber se você estaria  interessado em uma leitura de algum dos seus trabalhos na Faculdade Fairmount.
- Bem, sim, qual a data?
- No dia 30 do próximo mês.
- Acho que não tenho nada marcado para esse dia.
- Nosso pagamento geralmente é de cem dólares.
- Geralmente recebo 150. Ginsberg  ganha mil.
- Mas ele é Ginsberg. Podemos oferecer apenas cem.
-Tudo bem.
- Bom, sr. Gantling. Enviaremos os detalhes para você.
- E o transporte? Dirigir até ai não é pouca coisa.
- Ok, 25 dólares pela viagem.
- Ok.
- Gostaria de falar com os estudantes em suas classes?
- Não.
- Oferecemos um almoço grátis.
- Vou aceitar o almoço.
- Bom, Sr. Gantling, estaremos esperando para vê-lo em nosso campus.
- Nos falamos.
Carl foi até o quarto. Olhou para a máquina de escrever. Colocou uma folha de papel  no rolo, então observou uma garota com uma minissaia surpreendentemente curta cruzar pela frente de sua janela. Depois começou a escrever:
“Margie ia sair com um sujeito, mas,no caminho, esse sujeito encontrou um outro sujeito que vestia um casaco de couro e o sujeito com casaco de couro abriu o casaco de couro e mostrou as tetas e o outro sujeito foi até a casa de Margie e disse que não poderia mais ir ao encontro, porque esse sujeito vestindo um casaco de couro, havia lhe mostrado as tetas...”
Carl ergueu sua cerveja. Era bom voltar a escrever.

Ao Sul de Lugar Nenhum
Charles Bukowski
Tradução de Pedro Gonzaga
L&Pm Editores 




sábado, 25 de dezembro de 2010

O Rio que gostei de viver.

      Viver o Rio de Janeiro e muito melhor do que vê-lo.      












Depois de quatro meses de intensa atividade na livraria e na feira do livro de Porto Alegre, finalmente chegou a esperada semana de folga no Rio de Janeiro, programada com amigos cariocas, baianos, paulistas, mineiros e cearenses da comunidade História e Música. Quando se fala em semana de férias e descanso no Rio de Janeiro, nos vem à mente a imagem do Corcovado, Copacabana, Ipanema, Cristo Redentor, uma rede balançando preguiçosa, um violão tocando, água de coco gelada e preguiça. Não deu tempo para nada disso. Ainda bem, pois o que encontrei é a verdadeira riqueza do Rio de Janeiro: O povo carioca. No mais, andamos pela Vila Isabel, pelo Vaca Atolada na Lapa, na Cidade do Samba, e curtimos um lindo domingo na roda de choro da praça São Salvador no Flamengo. A Pedra do Sal não rolou mas fica para a próxima. 
Agradeço a Vó Jací, sempre atenta e preocupada com tudo e ao Orlando e a Roh que nos mostraram este Rio Maravilhoso. Obrigado Carlão pelo carinho. Um abraço muito especial aos amigos Fabiana e Júlio de Minas, ao Pino e sua turma da Bahia e a Zelia lá do Crato (Vamos aparecer por lá hora dessas), à Mônica, Conceição e Márcia (as meninas superpoderosas de São Paulo), e ao Luis Fernando do Samba na Fonte e ao Companheiro Ernesto, obrigado pelo livro. Sem esquecer da Thaís, da Elizabeth, da Ana Lúcia e da Terezinha.  Parabéns ao Orlando que teve sua composição escolhida para samba enredo da Vizinha Faladeira. 
Só para não perder o costume, aproveitei o tempo de viagem e espera nos aeroportos lendo Bukowski, cujo linguajar típico, escrachado e escatológico serviu-me de preparação para algumas palavras típicas do linguajar carioca (adoram falar porra e merda). Levei a edição pocket da L&pm do Ao Sul de Lugar Nenhum, escrito lá nos anos 70 que traz um Bukowski maduro e no auge da fama. No Livro diversos contos são protagonizados pelo Chinaschi, espécie de alter ego do autor e a maioria de seus personagens são bêbados, prostitutas, vagabundos, drogados e alienados da sociedade, que nos emocionam pelo singelo e e pela profundidade de seus sonhos. Bukowski nos mostra a poética da miséria humana que de alguma forma ou outra me remete diretamente a poética da favela que vi da janela do avião. E a propósito, foi impressão minha ou tem poucas livrarias no Rio de Janeiro?


Sem ciência, preferimos crer na mentira alheia do que em nossa própria realidade

          Aqui comigo e em algumas conversas mentais com minha gata, eu nutria uma espécie de esperança de que mais cedo ou mais tarde os e...