segunda-feira, 23 de março de 2020

Sem ciência, preferimos crer na mentira alheia do que em nossa própria realidade

          Aqui comigo e em algumas conversas mentais com minha gata, eu nutria uma espécie de esperança de que mais cedo ou mais tarde os eleitores (ou pelo menos uma boa parcela destes) que nos legaram este magnífico governo brasileiro, acabariam por arrepender-se. Pensei aqui em direção da felina, se não seria necessário aqui um alerta de ironia, pois nunca se sabe o que algumas pessoas entendem, mas ela está muito ocupada lambendo as patas no sol deste março de pandemia. Meus magros desejos de volta à racionalidade acabam de ficar um pouco mais desnutridos. Outro dia, ao procurar entre as prateleiras o livro Cachorros de Palha (Infelizmente fora de edição) para indicar a um amigo, deparei-me com outro livro de John Gray - O Silêncio dos animais. Logo nos primeiros capítulos ele destroça minha, já escassa, fé na natureza humana e meus anseios de uma virada política vão pro brejo. 
          Gray, professor de Pensamento Europeu e Política na London School e Oxford, traça um cuidadoso roteiro através de referências que vão de Borges a Freud sobre como lidamos com o mundo quando perdemos a fé no progresso e na evolução moral de ser humano. No capítulo Um Velho Caos - Humanismo e Discos Voadores, ele conta uma história interessante:
          Lá pelo final de 1954, Leon Festinger trabalhava sua teoria da dissonância Cognitiva, e organizou uma equipe de psicólogos para se infiltrarem entre os integrantes de uma seita. Seus seguidores se preparavam para receber a visita de um disco voador que os levaria a outro planeta na noite em que a terra seria destruída.
          A terra não foi destruída, o disco não apareceu e como previa a teoria dos pesquisadores, os membros da seita se recusaram a aceitar que suas crenças estivessem equivocadas e preferiram acreditar – e comemorar - que suas vigílias e orações conseguiram impedir o fim do mundo.

          Nestes tempos de notícias falsas e teorias estapafúrdias que vivemos, estamos caindo numa armadilha, provavelmente, muito bem planejada e articulada que resultou neste imenso caldo de insanidades que vemos diariamente. Infelizmente temo que quanto mais tentarmos convencer os seguidores dessas balelas “terraplanistas” e afins de que estavam errados, mais motivos encontrarão para reforçar suas estapafúrdias teorias. 

A espécie humana não suporta muito a realidade (T.S. Eliot) 
O Silêncio dos Animais, sobre o progresso e outros mitos modernos.





sexta-feira, 23 de março de 2018

Até tu?

Em ano de eleições os políticos preparam suas estratégias para o processo eleitoral. Conversas nas esquinas, festas, velórios e redes sociais (essas redes sociais!), candidatos óbvios negam suas pretensões, enquanto outros, que não serão, anunciam candidaturas. Jogam suas estratégias e procuram negociar melhores cargos para si e seus pares, partidários ou não. 
Como naquelas brincadeiras infantis, ficam rodeando cadeiras com as mãozinhas (grandes?) nas costas, fingindo que não vão sentar, mas sentarão na primeira oportunidade. 
Nem tudo que é dito é o que se quer, mas certamente o que se quer não é dito. As verdades aparecem quando é chegado o momento de cobrar antigos compromissos. A memória humana costuma minimizar obrigações e supervalorizar juras e promessas recebidas. 
Ao realizar novos conchavos, todos são afáveis irmãos de causa, mas na hora de dividir as batatas, as pequenas e podres terão que sobrar para alguém. 
Não é raro aparecerem “beicinhos” depois das eleições quando os cargos são distribuídos e alguns não recebem o quinhão esperado. Eles também aparecem em momentos como agora, em que se preparam as alianças para a próxima eleição e algumas juras de amor eterno foram esquecidas. Para quem se surpreende com a traição e com a ingratidão, lembro que elas acompanham os seres humanos por toda a nossa existência. 
Plutarco, filósofo Grego, contava a história de um soldado que em determinado momento salvara a vida de um rei muito poderoso numa batalha. O jovem ficou radiante, pois imaginava que seria fartamente recompensado. Procurou um sábio para que o ajudasse a decidir o que pedir ao rei, como recompensa por seu ato de bravura, mas este o aconselhou a fugir imediatamente. O soldado, incrédulo, preferiu ficar e não deu outra: Em poucos dias foi morto. 
Ainda hoje, na política, um todo poderoso rei ser salvo por um súdito pode demonstrar uma fraqueza e alavancar novos pretendentes ao reinado. Ao mesmo tempo salvar um rei pode ser prenúncio de uma, metafórica ou não, morte política e unir-se a ele transformará seus aliados em lacaios. 
Lá por 40 A.C., Júlio César governava Roma com mão de ferro e seus senadores eram obrigados a aprovar projetos de lei que nem sequer haviam lido. 
Foi assassinado por 60 de seus senadores entre eles, o próprio filho adotivo, Brutus.
A política ainda é a forma mais sofisticada de convivência que a humanidade, em seus milhões de anos de existência, conseguiu produzir. Um prato de incertezas que os senhores e senhoras políticos, e aquele que pretendem sê-los, precisam aprender a saborear. Trair e ser traído, faz parte de um cardápio que está à mesa e certamente haverá ingratidão de sobremesa.
Apesar de tudo, ainda será preferível combater mil corruptos a um único soldado armado. A democracia, quando saudável, permite controlar a corrupção com mecanismos de transparência e justiça social. Uma ditadura, rapidamente constrói mecanismos corporativos de autodefesa que oferecem de bandeja tudo que a corrupção precisa para crescer e se desenvolver ainda mais.
Aos que hoje clamam por uma hipotética ditadura e àqueles que acreditam e defendem interesses de uma dúzia de poderosos (que sozinhos possuem mais riquesa que a metade a população brasileira), lembrem-se do soldado de Plutarco.

Briga Feia

Ando preocupado com a quantidade de coisas que ultimamente estão a cair por todos os lados. Tenho a impressão de que estamos vivendo uma grande crise de competência que atinge nosso país de um lado ao outro. Lembram-se daquele viaduto que caiu em Belo Horizonte? Também tem estradas recém-inauguradas que afundam e aquele elevador de Porto Alegre que despencou por estar com uma placa indicando carga máxima de doze pessoas quando comportava apenas seis. Agora, semana passada, caiu, no bairro Pedras Brancas, uma enorme caixa d’água que a Corsan acabara de instalar e estava recebendo água pela primeira vez. Não chegaram nem a inaugurar a coitadinha.
Não sei se são os engenheiros que estão se formando sem saber fazer os cálculos direitinho ou se a culpa é do WhatsApp que está distraindo os funcionários em momentos críticos. O camarada lá em BH pode ter se descuidado ao responder uma mensagem urgente da namorada e errou o cálculo do ferro em apenas uma virgulazinha e algumas toneladas a menos. “Cosa poca”.
Imagino que o sujeito do elevador de Porto Alegre que fora incumbido de colar a placa de carga máxima, tenha ficado em dúvida entre uma ou outra e botou qualquer uma, pois ao final das contas, hoje em dia, tanto faz. Não dá nada.
Já no caso da caixa d’água, fiquei matutando aqui com meus botões, os quais, assim como eu, também não entendem nada de engenharia. Como será que eles queriam fazer para que ela ficasse em pé do jeito que levantaram aquilo? Sei lá, também não posso ficar me metendo com coisas que não conheço. Vai que exista uma reza especial que faz caixas d’água ficar de pé sem sustentação. Mas, no caso, falhou.
Pelo sim, pelo não, evito inaugurações de obras que possam desabar e procuro não ter pressa para experimentar estradas novas. Nunca se sabe...
Outra possibilidade para as coisas andarem caindo por esse Brasil afora, pode ser atribuída a uma briga feia que estamos vivenciando. Acho que o brasileiro está brigado com a matemática. Não só com a matemática, mas também com nossa pobre língua portuguesa (como batem na coitadinha), mas também com a física, a química e a biologia. A briga é com a escola inteira. E que briga feia!
Aproveitei o feriadão para dar uma lida no livro do professor Dr. Sérgio Kodato da USP, “O Brasil fugiu da escola” que apresenta um retrato do caos que vive a escola no Brasil.
Não creio que esteja na hora de repensar a educação. Está na hora de pensar. Pais, alunos e professores ao atravessarem o portão da escola precisam responder a si próprios uma pergunta simples, mas crucial: Afinal, o que estou fazendo aqui?

Magníficas

O mundo de hoje só existe como mundo devido a algumas mentes prodigiosas e iluminadas. Mentes que dominaram a física, a química, a matemática, a filosofia, a literatura, para criar tudo que existe e que nos traz conforto e bem viver. 
Fico impressionado com a dificuldade que muitos têm para articular ou grafar algumas simples palavras de forma correta, enquanto outros constroem imensas e complicadas fórmulas que trazem benefícios a toda a humanidade. Mas é a vida e assim funcionam as coisas. Uns tem demais enquanto que para outros falta. Fazer o quê? 
Desde os clássicos, Sócrates, Platão, Aristóteles e Arquimedes, até os dias atuais, algumas dúzias de mentes extraordinariamente inteligentes, produziram mais conhecimento e progresso do que milhões de seres que nasceram e morreram neste nosso planeta complicado. 
Pascal, Galilei, Newton, Leonardo Da Vinci e muitos outros, deixaram suas marcas na história do conhecimento humano. Einstein destrinchou grande parte da lógica das leis do universo com suas elaboradas teorias da relatividade que fundamentam até hoje muito da física moderna. 
Todos estes grandes gênios deram, à sua maneira e em suas áreas de conhecimento, largas contribuições para formar o caldo de cultura que nos tornou o que somos hoje. 
Não tenho dúvidas de que eles se tornaram os grandes gênios que foram, já a partir de tenra idade, por possuírem aguçado dom de observação. Pois assim, munidos desta ferramenta, puderam observar, desde cedo, a atividade de uma das mais eficientes mentes do planeta: As mulheres. 
Por maiores que fossem as qualidades de qualquer um desses sabichões que estou a citar, duvido que algum deles conseguisse realizar o que qualquer mulher faz com a maior facilidade. A prova do que escrevo pode ser comprovada observando uma simples necessaire. É absolutamente indescritível tudo o que uma mulher consegue acomodar, perfeitamente ajustado, dentro de um desses minúsculos estojos de carregar na bolsa. O mais incrível de tudo é que elas conseguem dirigir, falar ao celular e retirar da bolsinha exatamente o que  estavam procurando, sem tirar os olhos da estrada. Não acredito que algum homem consiga encaixar tantos objetos num espaço tão reduzido. Vou além e desafio aos prezados varões a achar algo lá dentro sem ter que parar tudo que estavam fazendo e espalhar o seu conteúdo sobre uma mesa para catar o que buscavam. 
Pois caríssimos e estimados leitores, aproveitem e façam como os grandes gênios e olhem ao seu lado, para ver e observar o desempenho dessas mentes magníficas.


O Futuro Passou

Muitos escritores do passado imaginaram um século XXI bem diferente do que estamos vivendo. Uma pena isso. Cada vez que ando por tristes, esburacadas e poeirentas ruas da cidade, desejo um daqueles veículos voadores do Gibi do “Buck Rogers no Século XXI”, de 1979. Pena que o futuro passou e restaram apenas buracos de ruas sem calçamento, sem meio fio, nem passeios públicos... 
Ao contrário dos Jetstones, os robôs não lavam nossa louça, nem lustram nossos sapatos. Eles apenas atendem nossas ligações quando reclamamos da falta de energia elétrica, de telefone, de água. Definitivamente não estamos no sonhado futuro, quando chegamos em casa e temos que descer na lama em um dia chuvoso para abrir o portão que não abre por falta de energia.  Não tem a menor graça. Ligamos enfurecidos para a Companhia e o robô com sua fanha voz feminina informa que to-ma-rão pro-vi-dên-cias, enquanto apaga a gravação. Nos desenhos animados dos Jetstons a energia elétrica certamente não era fornecida pela CEEE, pois neles todas as portas se abriam e tudo funcionava quando era acionado. 
Até a água vinha pelos canos para banhar os felizes personagens dos filmes de ficção científica. Nós, habitantes das periferias suburbanas, precisamos aprender que qualidade de vida é coisa para quem pode e não para quem quer. Pena que o futuro só nos trouxe a raiva de ter que reclamar como bestas, pois todos sabemos de antemão que não seremos ouvidos. 
Mas tudo isso não é nada perto do que ainda está por vir. Nem George Orwell com seu 1984 deixou de ser destroçado pela realidade. A ficção de Orwell previa uma sociedade onde um poder central (O Big Brother) fiscalizava e via tudo que ocorria em seu país imaginário. Hoje, ao contrário, perdemos a noção de privacidade e informamos, minuto a minuto, o que estamos fazendo em nossas vidas, para quem quiser ver e ouvir. 
Estamos vendo nascer uma nova ditadura. Uma maioria conectada em tempo integral está  pronta para rechaçar imediatamente qualquer atitude ou pensamento não alinhado. Quem ousar ser diferente, corre o risco de ser sumariamente julgado, ou pior, linchado. Talvez ainda sentiremos na pele que uma ditadura também pode vir de uma maioria ignóbil e reacionária devidamente manobrada. Superarão e deixarão no chinelo os pobres déspotas e tiranos das ditaduras militares da América do Sul das décadas sessenta e setenta. Eram meros aprendizes. 
Espero que este meu delírio de ficção, assim como os outros, também não se realize. Quem sabe. Ainda há tempo para que resolvam ler mais, estudar mais e deixar de lado as futilidades e crendices, para construir uma sociedade realmente democrática, justa e livre. O problema é que isso cansa e dá trabalho.

Adelante

Os feriados de Natal e Ano Novo proporcionam uma parada nas atribulações do nosso dia a dia, embora muitas vezes causem uma correria muito maior do que se não existissem. Disputamos ingredientes para as ceias praticamente a tapas com outros pretendentes e cada milímetro avançado na Free-way pode ser comemorado como uma vitória. 
Depois dos feriados retornamos mais cansados do que fomos. Exaustos depois de horas trancados num trânsito pachorrento, vamos e voltamos aos locais de nossa preferência onde passamos alguns dias de um pretenso descanso. Digo pretenso porque saímos do conforto dos nossos lares para passar trabalho e dificuldades muitas vezes apenas para cumprir um script que se repete ano após ano. 
Como um ritual tribal de alguma ilha perdida no pacífico, anualmente empurramos os problemas para debaixo de tapetes imaginários e nos dedicamos por alguns dias a brincar e viver uma “la vie em rose”. A realidade fi cará para ser resolvida no futuro. “No ano que vem”. 
Mas, sabe-se lá se esse período anual, de jogar tudo para o alto e viver a vida por alguns dias, não seja justamente o que nos dá a força para voltar e enfrentar mais um ano de vida normal. Essa suposta vida normal que nos transformou em coisas (homobjectus?) e nos suga a maior parte da nossa vida. Pensando bem, passar uma ou duas semanas brincando com o filho numa praia é um pagamento muito pequeno pelo que somos obrigados a fazer pelo resto das nossas vidas para ter esse direito. 
Um bom descanso e ótimo retorno para todos.
O ilustrador Luis Paulo está de volta do estrangeiro. Voltou  morrendo de saudade de um churrasco e um bom chimarrão e anda desenhando a gauchada como nunca.

domingo, 10 de março de 2013

Olhar natalino


Olhar natalino do menino baleado
Publicado na Nova Folha em  21/12/2012
Mal tive tempo de abrir a porta do carro e fui abordado pelo rapaz que rapidamente serpenteou entre os veículos estacionados na Rua São José. Não consegui distinguir a idade do menino. O corpo franzino carregava cabeça de homem.  Seu olhar esforçava-se para ser de súplica, mas era frio e ameaçador. A sua mão estendida e ato contínuo, minha mão no bolso a procurar moedas. Só então percebi que seu gestopedia um cumprimento. Por instinto abandonei o bolso e a procura por moedas e voltei-me para lhe atender a saudação oferecida. Calejada e suada. Pegajosa. Asco.
A voz que não escondia a fanhosidade, provavelmente devida à falta de dentes e pela dormência provocada pelo uso de alguma droga qualquer, pedia trabalho. “Sei fazer muita coisa doutor. Sou bom de serviço. Preciso ajudar minha mãe que está doente”. Pensei em perguntar sua idade, mas desisti ao supor que talvez ele nem a saiba exatamente. Corpo de doze e rosto de trinta e seu estado maltratado lhe assegura um ar assustadoramente miserável. Um casal pediu licença para passar por nós carregando um tapete. Ouvi a voz de um pregador que orava em clamor ali perto.
A figura do rapaz na minha frente me lembrou do Lumpenproletariat, Marx, “o pior sedimento da superpopulação que vegeta no inferno da indigência e do pauperismo” e dos “Lá Bohème” franceses, “a mais completa escória que Napoleão Bonaparte reuniu para tomar o poder” (18 Brumário de Luís Napoleão).  Na rua passavam pessoas alegres carregando presentes natalinos, ventiladores, telescópios, liquidificadores, sacolas e mais sacolas.
Um casal de papais noéis brincava na rua atraindo clientes para uma loja. “Pelo menos alguma coisinha para levar para ela” ele insistiu. Sabia que a coisinha  viraria uma pedra e a abstinência da droga estava cada vez mais visível nos seus gestos irrequietos. Lembrei-me dos meus filhos e não consegui evitar a vontade de pegar o menino no colo, levar para casa e cuidar para que nunca mais nenhum mal se aproxime dele. Mas seu olhar de homem me devolveu à realidade e a intuição de que era preciso tomar uma atitude rapidamente. Lembrei-me de um dinheiro no bolso e me apressei em alcançar-lhe uma nota de dez. Seu rosto iluminou-se, agradeceu e com um “feliz natal” saiu em disparada.
Por alguns instantes fiquei imóvel observando-o se afastar até desaparecer entre a multidão de transeuntes na calçada. Uma menina e um adulto carregavam um urso enorme embrulhado com fitas coloridas. Um carro de som passou ao meu lado anunciando promoções de alegria com músicas natalinas. O casal de noéis continuava a desenvolver sua pantomima surreal enquanto eu tentava buscar por um pouco de equilíbrio na minha mente, para aplacar a imensa tristeza por constatar que a vida é assim mesmo. Todos tentam desesperadamente ser felizes. Cada com suas drogas.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Meu voto de protesto


Publicado no Jornal Nova Folha em 21/9/2012

Em cada eleição aparecem oportunistas escondidos atrás do que gostam de chamar de voto de protesto. Em São Paulo, o palhaço Tiririca elegeu-se com o slogan “Vote no Tiririca. Pior do que está não fica”. E ficou. Elegeu-se levando com ele três deputados hoje amplamente conhecidos como corruptos, chegados a receber “algum por fora” para darem seus votos na Câmara onde estão, enfim, “picaretas” e todos estão respondendo a processos por desvio de dinheiro público.
O voto em branco é outra forma de induzir incautos que ainda não se decidiram e acham que assim vai mudar alguma coisa. Pois é justamente o voto em branco que só mantem as coisas exatamente como estão. Voto em branco quer dizer: “Estou contente. Para mim está bom assim.
Entendo que o eleitor se quiser protestar, deve fazê-lo contra si próprio, pois se algo está mal na política é porque estamos votando mal e acompanhando mal o processo democrático. A maioria de nós não lembra em quem votou na eleição passada para vereador. Ao votar, estamos escolhendo alguém para nos representar, baseados em compromissos assumidos por ele como candidato.
Nesta eleição vou protestar contra mim mesmo e mudar minha relação com o candidato que escolher. Estou guardando todo o material de propaganda e compromissos assumidos pelos meus candidatos preferenciais e, do eleito, mensalmente analisarei suas atividades. Cobrarei o cumprimento de suas propostas e compromissos assumidos até o último ponto. Aliás, acho que todos nós podemos começar acobrar de nossos candidatos ainda antes da eleição, exigindo que nos indiquem um local e um horário, à noite ou nos finais de semana, para atender, pessoalmente, aos eleitores. Além de prestar contas, o vereador poderá discutir com seus eleitores a sua atitude quanto aos projetos que tramitam na Casa Legislativa de Guaíba. Afinal, os próprios vereadores dizem que o salário que recebem não se refere aos 50 ou 60 minutos que, em média, dura uma sessão semanal da Câmara de Vereadores e sim como pagamento por todo o trabalho que fazem por seus eleitores em todos os dias da semana.
Portanto, se algum candidato ainda quiser disputar os votos de eleitores mais exigentes, ainda tempo de divulgar onde e quando fará suas reuniões de prestação de contas e avaliação de suas ações. Quem sabe estarei presente, para cobrar sua postura e colaborar com o que for possível para que o vereador tenha uma boa atuação.


sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Olhar de kamikaze


Publicado no jornal Nova Folha em 7/12/2012


Pelo espelho retrovisor vi que o capacete
do sujeito da motocicleta servia
de moldura a um par de olhos, algo nipônicos,
crispados de ansiedade e adrenalina.
Ao passar do meu lado entre os
automóveis, toda a sua figura mostrava
estar determinado a cometer qualquer
ato para atingir seu objetivo. Qual um
kamikaze pilotando seu avião Zero rumando
para a própria morte gloriosa
pela pátria. A cena me traz a lembrança
do livro “Corações Sujos” de Fernando
Morais.
Os pilotos da marinha imperial japonesa
davam a vida pelo direito de
morrer pelo imperador. O discurso de
Hiroito assegurava que todos os meninos
Tokotai iam livremente, felizes e orgulhosos,
morrer por ele e pela vitória do
Japão na segunda guerra.
Os novos kamikazes urbanos pilotam
motocicletas esquálidas para entregar
uma pizza em meia hora para um
sujeito gordo se lambuzar de ketchup,
enquanto zapeia pornografias na televisão
da madrugada. O discurso do dono
da pizzaria assegura que os meninos das
motocicletas, estão felizes e orgulhosos
em participar da campanha e quem não
entrega em 30 minutos não recebe os
três reais da corrida.
O sinal está fechado e o kamikaze
acelera e para, acelera e volta e corcoveia
como se fosse cavalo nervoso e irrequieto.
Nenhum veículo se move enquanto
ele continua sua coreografia. No rádio,
o homem da previsão do tempo anuncia
um dia lindo e ensolarado. O motociclista
parece estar preparando um grande
salto mortal com sua barulhenta máquina
prestes a entrar num globo da morte
em algum circo da periferia. Da calçada
surgem dois garotos esfarrapados com
narizes de palhaço fazendo malabarismo
com algumas bolas encardidas, enquanto
um terceiro pede esmolas entre
os veículos. Agora o circo está completo,
penso sentado ao volante, como se fosse
um camarote do Gran Circo Americano,
nesta manhã modorrenta de céu avermelhado
que recém está se espreguiçando
no horizonte.
O sujeito da motocicleta continua
acelerando e aumenta a agitação de seus
movimentos com a iminência, finalmente,
do sinal abrir. Os garotos se afastam
e a motocicleta empina como sinal de
força e determinação. O caminhão de
verduras da Fruteira Paraíso aproveita o
sinal que está quase fechando para ele.
Talvez o verdureiro ainda tenha tempo
de tomar café antes de abrir a quitanda.
O estrondo é surdo e abafado seguido
de um nítido e longo arrastar de pneus
e ferro no asfalto. O sinal abre e os automóveis
começam a se mover letargicamente.
Há algumas pessoas correndo,
pedindo socorro e fazendo gestos com as
mãos. Prefiro ficar olhando os garotos
com narizes de palhaço dividindo alguns
pedaços de pizza na calçada.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Cachorrada e cerveja


Publicado originalmente na Nova Folha em 06/9/12


Nossos lares, frequentemente, são invadidos
sem cerimônia, por ruídos absurdos
e enlouquecedores. Matilhas de
cães ladrando ensandecidos, nos dão a
impressão de estarmos vivendo em uma
cidade da idade média ou dentro de um
canil. Como não há nada neste mundo
que não possa ficar um pouco pior, nesta época de
campanha política, aos cães, juntam-se
candidatos que infestam nossas ruas
com sucatas motorizadas uivando reclames
infames. Piora quando os dois se
juntam. Os carros de som disparam a
ladraria dos cães. Quanto mais alto uns
fanfarram mais alto os outros ladram.
Tortura digna dos círculos do inferno
de Dante. O que, aliás, tem a sua lógica.
Cães e carros de som andam nas ruas, e
como todos nós temos pecados diferentes,
Deus deve ter inventado esta estratégia
para punir-nos simultaneamente.
Esperto. Suportar essa algazarra sonora
e manter o equilíbrio requer força de
vontade e algumas escapadas estratégicas
para paragens mais civilizadas.
Numa dessas, acabei no Lagom
Brewpub, no Bom Fim, com a recomendação
das boas cervejas da casa. Para
quem queria algo mais civilizado, disputar
um copo de cerveja, aos gritos, com
um bando de hooligans alcoolizados
está um pouco longe, mas a cerveja é boa
e compensa o sacrifício. A primeira que
experimentei foi uma Soked Porter, escura
e muito saborosa que recebi depois
de pedir uma cerveja clara de trigo a um
sujeito muito atencioso, com piercing no
nariz. Ele explicava atentamente a composição
de cada item do cardápio, mas
o pedido vinha trocado e não consegui
provar nada do que pedi. Na segunda
tentativa, voltei a pedir a clara de trigo e
recebi uma Smoked Porter, negra e com
reflexos de rubi, diz no cardápio, muito
boa e com alto teor alcóolico. Deve ser
alguma estratégia. Sei lá. O preço não é
caro e os bolinhos de bacalhau, embora
não cheguem aos tornozelos dos bolinhos
do Odeon, não são de jogar fora.
Preciso voltar lá para ver se tenho mais
sorte e consiga provar a cerveja clara de
trigo que me foi recomendada.
Uma coisa é certa. A passagem pelo
Lagom, que segundo seu material de
propaganda quer dizer equilíbrio em
alguns países de língua nórdica, permitiu-
me, momentaneamente, esquecer a
cachorrada, em todos os sentidos, que
anda solta na nossa cidade.


quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Os 100 anos dos Contos Gauchescos


Publicada no jornal Nova Folha em 11/5/2012


Durante a Semana do Livro deste ano,
tivemos a apresentação magnífica do Sarau
100 Anos dos Contos Gauchescos no Museu Carlos
Nobre. Quem não viu, perdeu um grande espetáculo dos
dois mestres. Altair Martins e João Bosco Ayala acompanhados
pelo músico Pacheco, contaram-nos um pouco da
história do Rio Grande, da vida de Simões Lopes Neto e de
como surgiu o livro Contos Gauchescos.
O autor publicou quatro livros: Cancioneiro Guasca
(1910), Contos Gauchescos (1912), Lendas do Sul (1913), e
Casos do Romualdo (1914). A fama surgiu apenas após a
sua morte, quando em 1949, organizada para a Editora Globo,
por Augusto Meyer, e com supervisão do editor
Henrique Bertaso e de Érico Veríssimo, foi lançada uma
edição crítica da obra Os Contos Gauchescos e Lendas do
Sul.
Durante sua vida, Simões Lopes Neto envolveu-se em
diversas iniciativas de negócios e atividades. Teve uma
fábrica de vidros, uma destilaria e até uma fábrica de cigarros
que produzia os cigarros da marca "Diabo" (é daí, exatamente,
que veio a expressão "Marca Diabo"). Apesar de
criativo e audacioso seus negócios acabavam fracassando.
Chegou a montar uma fábrica para torrar e moer café e
desenvolveu uma fórmula, à base de tabaco, para combater
sarna e carrapatos. Por fim, ainda fundou uma
mineradora para explorar prata em Santa Catarina.
Atitudes irrequietas e desbravadoras como as de Simões
Lopes Neto, são muito visíveis em toda história da humanidade.
Suas obras geniais, em muitos casos, acabam descobertas
ou tidas como geniais apenas postumamente.
Agora mesmo, podemos estar convivendo com um inovador,
um gênio, cuja obra somente será reconhecida depois
de muito tempo. Por que será que não nos damos conta
disso? Em casa, nas escolas, no trabalho, procuramos "enquadrar"
os "desajustados". Nossas mentes narcísicas
insistem em repetir o que achamos correto e gostamos do
que pensamos que somos. O diferente nos assusta. Normalmente
aceitamos melhor o que vem de fora e está pronto
do que aquilo que está se desenvolvendo aqui, ao nosso
lado. Preferimos buscar soluções que, aparentemente,
funcionam em outros lugares ao invés de ousar e desenvolver
nossas próprias alternativas. Mas a vida nos oferece
caminhos a escolher: podemos ser copiadores ou criadores.
A escolha é nossa. Ainda bem que alguns conseguem
escapar do cerco impiedoso que exercemos sobre
quem ousa ser criativo ou ter uma ideia nova.
No dia 29 de maio, estaremos com a Livraria Entrelinhas,
a Nova Folha e a revista Travessia na Feira do Livro
da Escola Martinho Lutero.
Aos pais que desejam despertar em seus filhos o hábito
da leitura, sugiro o exemplo antes do discurso. A leitura é
um mundo a desbravar. Quem sabe, um dia por semana
substituir duas horas de TV por um livro?

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Leituras de carnaval: O CADERNO DE MAYA




                  O Caderno de Maya é novo livro de Isabel Allende que está nas livrarias. A autora de Casa dos Espíritos, Inés da Minha Alma, Paula e outros, agora escreve sobre Maya, 19 anos, americana, pai chileno e mãe dinamarquesa. Criada nos Estados Unidos, pelos avós paternos, vê sua vida desmoronar num mundo de drogas, prostituição, tráfico, delinquência e promiscuidade. Refugia-se na ilha de Chiloé,  no chile, descobre a si mesma, o amor e o desamor, o misticismo do povo chileno, a história de sua família, além da história da ditadura no Chile do general Pinochet.


               Da orelha: "Sou Maya Vidal, dezenove anos, sexo feminino, solteira, sem namorado - por falta de oportunidade e não por frescura - nascida em Berkeley, Califórnia, com passaporte norte-americano, temporariamente refugiada numa ilha ao sul do mundo. Me chamaram de Maya porque a minha Nini é fascinada pela Índia e não ocorreu outro nome a meus pais, mesmo tendo tido nove meses para pensar. Em hindi, maya significa ‘feitiço, ilusão, sonho’, nada a ver com o meu temperamento. Átila me cairia melhor, pois onde boto os pés não nasce mais pasto."

              A leitura é um mundo a desbravar. Quem sabe, um dia por semana, substituir duas horas de TV por um livro?

http://www.facebook.com/guima.beineke

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Minha Querida Sputnik



                            Estive conversando com uma amiga sobre o livro “Minha Querida Sputnik”. Li o livro de Haruki Murakami há uns cinco ou seis anos atrás quando ele ainda não tinha a capa horrorosa que tem hoje. A bela história do amor de Sumire, a jovem acadêmica de literatura um pouco afetada e neurótica (acho que os japoneses são assim mesmo) por Miu, uma empresária bela e bem sucedida 17 anos mais velha que ela.
                            
                       Na Tóquio moderna e ocidentalizada entre cafés e universidades ao som de Jazz, Beatles e bossa nova (“Dos pequenos alto-falantes no teto da cafeteria, Astrud Gilberto cantava uma antiga música de bossa-nova “Leve-me para Aruanda”) as duas acabam juntas. Esse "juntas" é meio japonês. A relação das duas, meio platônica, parece que é o máximo que o universo de Haruki, e da mentalidade japonesa aceitam. Não conheço muito os japoneses mas aparentemente eles não gostam muito desse negócio de gueixa com gueixa e samurai com samurai. Será que a cena da roda gigante onde Miu se enxerga sendo molestada sexualmente de certa forma não serve para "justificar" e explicar a relação das duas mulheres? 
                                 
                                                                      De qualquer forma, platônico ou não, amor sempre é amor, e a história é muito boa. O nome Sputnik surge de uma conversa entre as duas em que uma tenta falar dos Beatniks dos anos 50 e chama-os de Sputniks.“Miu ouvira falar em Jack Kerouac e tinha uma vaga noção de que ele era romancista de um certo tipo. De que tipo ela não se lembrava.
- Kerouac... Humm... Não era um Sputnik?
...A partir desse dia, o nome particular de Sumire para Miu foi querida Sputnik.”

O Livro também tem uma carga de suspense, e surrealismo meio místico. Sobrenatural talvez. Depois de uma viagem pela Europa e uma rápida estada numa pequena ilha Grega, Sumire desaparece sem vestígios. A história das duas mulheres é a moldura para outra história. A solidão humana. Cada qual com sua tragédia vive em seu próprio mundo. Todos andam juntos mas não se encontram.

Vale pena ler o Marukami. O japa sabe das coisas.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Edição Comemorativa de 30 anos de Caminhando na Chuva



Charles Kiefer
Leya Brasil

          Túlio é um jovem pobre, de descendência alemã, que vive numa pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul. Com a literatura na alma e as palavras incrustadas em seu ser, escreve e conta a sua história. Da deliciosa infância, inspirada pelas histórias do avô, Túlio transpassa a adolescência e lembra seus dramas, medos, amores, sonhos, desilusões... Mas a vida de Túlio fica mais difícil mesmo quando se apaixona por Rosana, moça rica e com um pai controlador. Com 20 edições no Brasil e uma em Portugal, a novela de temática adolescente  é a obra de estreia de Charles Kiefer na literatura e um clássico juvenil.
 
            “Agora vou parar de escrever, a chuva me convida a sair, a cidade está morta, mergulhada em silêncio, não há um carro nas ruas, nem um cão, nem uma pessoa. Até o momento em que romper a aurora, até o instante em que o sol explodir anunciando minha nova vida, e um novo tempo, vou ficar caminhando na chuva.” 
               
            “Tinha vezes que Deus se enfurecia e mandava a tempestade derrubar as casas, as plantações, as árvores. Pensava nas crianças pobres, que não tinham um lugar seguro pra se abrigarem. Difícil entender Deus. Eu não entendia, ainda não entendo e acho que nunca não vou entender, e acho também que ninguém não entende.”

       “E quem tem coragem de chorar é porque está vivo, porque pulsa, porque vibra. Quem sabe chorar também sabe explodir de alegria. O pior homem do mundo é o indiferente, porque o seu coração é um deserto, e no deserto não nascem flores.”

           A leitura é um mundo que precisamos aprender a desbravar. Quem sabe, um dia por semana, substituir duas horas de TV por um livro?

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Rumo ao Abismo?

 
Edgar Morin

                  Nesse livro, Edgar Morin prova que a crise mundial se agravou e o pensamento político é incapaz de formular uma política de civilização e de humanidade. O mundo está no início do caos, e a única perspectiva é uma metamorfose, com o surgimento de forças de transformação e regeneração. É preciso abandonar o sonho de um mundo dominado. É preciso renascer! Rumo ao Abismo? é uma mensagem de esperança para além do abismo.

                “Os conhecimentos novos que nos fazem descobrir a Terra-Pátria – a Terra-sistema, a Terra-gaia, a biosfera, o lugar da terra no cosmo – não terão nenhum sentido enquanto permanecerem separados uns dos outros. Vamos repetir: a Terra não é a soma de um planeta físico, mais a biosfera, mais a humanidade. A Terra é uma totalidade complexa, física-biológica-antropológica, em que a Vida é uma emergência da história da Terra e o homem uma emergência da História da vida terrestre.”

             Da Orelha: “Imersa no caos, a humanidade tem diante de si uma oportunidade inédita: metamorfosear-se em um metassistema rico em possibilidades ou sucumbir no abismo da insignificância generalizada. Por toda parte, forças de desintegração e de regeneração se confrontam intensamente, e esse embate não parece dar sinais efetivos de superação.”

                Para iniciar a metamorfose: A leitura é um mundo que precisamos aprender a desbravar. Quem sabe, um dia por semana, substituir duas horas de TV por um livro?



quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Marina



Carlos Ruiz Zafón


         Perdoem-me amigos, se não tenho nada a dizer sobre futebol, nem sobre o último escândalo armado pela TV para fazer a gente se preocupar com eles e dar-lhes mais dinheiro e poder. Passei três dias deliciosamente mergulhado na leitura do quarto livro do espanhol Carlos Ruiz Zafón.  Marina foi editado pela primeira vez na Espanha como literatura infanto-juvenil e agora foi relançado para o público adulto. Um livrinho perfeito, encantador, conta a história de Óscar e Marina, que juntos, descobrem uma trama cheia de mistério, crimes, criaturas misteriosas, roubo de cadáveres e muito suspense. Pelas ruas do bairro gótico de Barcelona eles seguem a trilha do mistério e descobrem o amor e a perda.
Alguns trechos de Marina:
      “...Quando ele entrou no Bairro Gótico, fui atrás. Não demorou para que sua silhueta se perdesse entre pontes estendidas entre palácios. Arcos impossíveis projetavam sombras dançantes sobre as paredes. Tínhamos chegado à Barcelona encantada, ao labirinto dos espíritos, onde as ruas tinham nomes de lenda e os duendes do tempo caminhavam às nossas costas.”
      “A beleza (da arte) é um sopro contra o vento da realidade”.
      “O circo foi a minha escola e o lar onde cresci. Mas nessa época, já sabíamos que ele estava condenado. A realidade do mundo começava a ser mais grotesca que as pantomimas dos palhaços e as danças dos ursos. Em breve ninguém precisaria mais de nós. O século XX tinha se transformado no grande circo da história”.
       Zafón não se limita a ser só um contador de histórias.
                A leitura é um mundo que precisamos aprender a desbravar. Quem sabe, um dia por semana, substituir duas horas de TV por um livro?

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Júlio Cortázar e os Jornais:




(Texto integrante do livro Histórias de 
cronópios e de famas
Editora Civilização Brasileira, 2011)



” O Jornal e Suas Metamorfoses
         
       Um senhor pega um bonde após comprar o jornal e pô-lo debaixo do braço. Meia hora depois, desce com o mesmo jornal debaixo do mesmo braço.

         Mas já não é o mesmo jornal, agora é um monte de folhas impressas que o senhor abandona num banco de praça.

         Mal fica sozinho na praça, o monte de folhas impressas se transforma outra vez em jornal, até que um rapaz o descobre, o lê, e o deixa transformado num monte de folhas impressas.

        Mal fica sozinho no banco, o monte de folhas impressas se transforma outra vez em jornal, até que uma velha o encontra, o lê e o deixa transformado num monte de folhas impressas. A seguir, leva-o para casa e no caminho aproveita-o para embrulhar um molho de celga, que é para o que servem os jornais após essas excitantes metamorfoses. ”

                A leitura é um mundo que precisamos aprender a desbravar. Quem sabe, um dia por semana, substituir duas horas de TV por um livro?

Sem ciência, preferimos crer na mentira alheia do que em nossa própria realidade

          Aqui comigo e em algumas conversas mentais com minha gata, eu nutria uma espécie de esperança de que mais cedo ou mais tarde os e...