LIVRARIA ENTRELINHAS

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Galeria Panorâmica, Guaíba RS

domingo, 23 de maio de 2010

O Mal-estar na Cultura (Das Unbehagen in der Kultur)

Alguns trechos do livro, escrito em 1929 e publicado pela primeira vez em 1930:

(p.41) É impossível escapar à impressão de que os seres humanos geralmente empregam critérios equivocados, de que ambicionam poder, sucesso e riqueza para si mesmos e os admiram nos outros enquanto menosprezam os verdadeiros valores da vida. No entanto ao efetuar qualquer juízo geral desse tipo, corre-se o risco de esquecer a variedade do mundo humano e de sua vida psíquica.

(p.56) Quanto às necessidades religiosas, parece-me imperioso derivá-las do desamparo infantil e do anseio da presença paterna que ele desperta, tanto mais que esse sentimento não se prolonga simplesmente a partir da vida infantil, mas é conservado de modo duradouro pelo medo das forças superiores do destino.
(p.56) A origem da atitude religiosa pode ser seguida nitidamente até o sentimento de desamparo infantil.

(p.58) O Homem comum entende por sua religião, o sistema de doutrinas e promessas que, por um lado, lhe esclarece os enigmas deste mundo com invejável completude e, por outro, lhe assegura  que uma Providência cuidadosa zelará por sua vida e numa existência no além, compensará eventuais frustrações. O Homem comum não consegue imaginar essa Providência de outro modo a não ser na pessoa de um pai grandiosamente elevado. Somente um pai assim é capaz de conhecer as necessidades da criança humana, compadecer-se com as suas súplicas, apaziguar-se com os sinais de seu arrependimento. Isso tudo é tão manifestadamente infantil, tão alheio à realidade, que se torna doloroso para uma mentalidade humanitária pensar que a grande maioria dos mortais nunca se elevar acima dessa concepção de vida.

(p.61) A questão da finalidade da vida foi colocada inúmeras vezes; Jamais se obteve uma resposta satisfatória e talvez nem sequer a admita...  (...) parece, antes,  que temos o direito de deixar tal pergunta sem resposta. Seu pressuposto parece ser aquela arrogância humana da qual já conhecemos tantas manifestações. Não se fala de uma finalidade da vida dos animais, a não ser que seu destino consiste em servir ao homem. (...)  o que os próprios seres humanos, através de seu comportamento, revelam ser a finalidade e o propósito de suas vidas? O que exigem da vida, o que nela querem alcançar? È difícil errar a resposta:  eles aspiram à felicidade, querem se tornar felizes e assim permanecer. Toda permanência de uma situação anelada pelo princípio do prazer fornece apenas uma sensação tépida de bem-estar; somos feitos de tal modo que apenas podemos gozar intensamente o contraste e somente muito pouco o estado.

(p.65) ( ...) todo sofrimento é apenas sensação, existe apenas na medida em que o percebemos, e apenas o percebemos em conseqüência de certas disposições de nosso organismo.

(p.66) O êxito dos tóxicos na luta pela felicidade e no afastamento da desgraça é tão apreciado como benefício que tanto indivíduos como povos lhes concederam um lugar fixo na sua economia libidinal.

(p.72)  É particularmente digno de nota o caso em que um grande número de pessoas empreende conjuntamente a tentativa de obter garantias de felicidade e proteção contra o sofrimento mediante uma transformação delirante da realidade. E quem toma parte do delírio obviamente nunca o reconhece como tal.
Como última técnica de vida, que ao menos lhe promete satisfações substitutivas, oferece-se a ele a fuga para a doença neurótica, na maioria das vezes já efetuada na infância.


(p.80) ( ...) as três fontes donde provém nosso sofrimento: O poder superior da natureza, a fragilidade de nosso próprio corpo e a deficiência das disposições que regulam os relacionamentos dos seres humanos, na família, no estado e na sociedade.

(p.81) (... )topamos com uma asserção que é tão espantosa que queremos nos deter nela. Segundo tal asserção, uma grande parte da culpa pela nossa miséria é de nossa chamada cultura; seríamos muito mais felizes se desistíssemos dela e retornássemos as condições primitivas. É certo que pertence justamente a essa mesma cultura tudo aquilo com que tentamos nos proteger da ameaça oriunda das fontes de sofrimento.

(p.109) O desleixo da linguagem no emprego da palavra “amor” encontra uma justificativa genética. É chamada de amor a relação entre um homem e uma mulher que em razão de suas necessidades genitais fundaram uma família, mas também recebem esse nome os sentimentos positivos entre pais e filhos e entre os irmãos na família, embora tenhamos que descrever essa relação como amor de meta inibida, como ternura. Em suas origens o amor de meta inibida foi plenamente sensual, e ainda continua a sê-lo na inconsciente do homem. Ambos,  o amor plenamente sensual e o amor de meta inibida, estendem-se além da família e produzem novas ligações com pessoas até então estranhas, O amor genital leva à formação de novas famílias, o de meta inibida, a “amizades” que se tornam culturalmente importantes porque escapam a algumas limitações do amor genital – por exemplo, à sua exclusividade. Mas a relação do amor com a cultura, perde o seu caráter inequívoco no decorrer do desenvolvimento. Por um lado, o amor se o0põe aos interesses da cultura; por outro, esta ameaça o amor com sensíveis limitações.

(p.110) (...)  uma das principais tendências da cultura é aglomerar os seres humanos em grandes unidades. A família, porém, não quer largar o indivíduo.

(p.113) (...) A cultura atual (1929)  deixa claro que apenas permitirá relações sexuais sobre a base de um compromisso único, indissolúvel, entre um homem e uma mulher, que não aprecia a sexualidade como fonte independente de prazer e que apenas está disposta a tolerá-la como fonte até agora insubstituível para a reprodução humana. Isso é um extremo, obviamente. É sabido que se mostrou irrealizável, mesmo por curtos períodos. Somente os fracotes se submeteram a um roubo tão considerável de sua liberdade sexual; 

(p.115)  Às vezes acreditamos perceber que não é apenas a pressão da cultura, mas algo na essência da própria função que nos nega a satisfação completa e nos impele para outros caminhos. Pode ser um erro; é difícil decidir.    (...) também o ser humano é uma criatura animal de inequívoca disposição bisexual. O indivíduo corresponde a uma fusão de duas metades simétricas, das quais, segundo a opinião de alguns pesquisadores, uma delas é inteiramente masculina e a outra, feminina. Também é possível que cada metade fosse originalmente hermafrodita.

(p.123) (...) o ser humano não é uma criatura afável e carente de amor que, no máximo, é capaz de se defender quando atacada, mas conta com uma cota considerável de tendência agressiva no seu dote de impulsos. Por esse motivo o próximo não é apenas um possível ajudante e um  possível objeto sexual, mas também uma tentação para se satisfazer nele a agressão, explorar sua força de trabalho se recompensá-lo, usá-lo sexualmente sem o seu consentimento, apropriar-se de seus bens, humilhá-lo, causar-lhe dor, torturá-lo e matá-lo.

(p.125)  A cultura precisa fazer de tudo para impor limites aos impulsos agressivos do homem...  Daí, portanto, o emprego de métodos que têm o propósito de estimular os homens a identificações e relacionamentos amorosos de meta inibida, daí a limitação da vida sexual e daí também o mandamento ideal que ordena amar o próximo como a si mesmo.

(p.126)  Os comunistas acreditam ter encontrado o caminho para a redenção do mal. (...) Caso a propriedade privada fosse abolida,  (...) visto que todas as necessidades estariam satisfeitas, ninguém teria motivo para ver no outro o seu inimigo; (...) Com a supressão da propriedade privada, a agressividade humana é despojada de um de seus instrumentos, (...) mas certamente não o mais poderoso. Quanto às diferenças de poder e de influência, das quais a agressão abusa para os seus propósitos, nada se modifica. A agressão não foi criada pela propriedade. (...) resta ainda o privilégio oriundo dos relacionamentos sexuais, que se tornará a fonte da mais intensa inveja e da mais violenta hostilidade entre os homens tornados iguais em todos os demais aspectos. Caso também se suprima esse privilégio por meio da completa liberação da  vida sexual, eliminando assim a família, embrião da cultura, é impossível prever quais os novos caminhos que o desenvolvimento cultural poderá trilhar;

(p.130) Se a cultura impõe sacrifícios tão grandes não apenas à sexualidade, mas também à tendência agressiva do homem, entendemos melhor que se torna difícil para ele ser feliz no âmbito da cultura. As coisas eram de fato melhores para o homem primitivo, visto que ele não conhecia qualquer restrição a seus impulsos. Em compensação, a segurança de gozar essa felicidade por longo tempo era muito pequena.  O Homem aculturado trocou uma parcela de possibilidades de felicidade por uma parcela de segurança. Não esqueçamos , porém, que na família primeva apenas o chefe gozava dessa liberdade de impulsos;  os demais viviam em opressão escrava.


(p.141) Acrescentamos que a cultura é um processo a serviço de Eros, que deseja reunir indivíduos humanos isolados, depois famílias, então tribos, povos e nações em uma grande unidade, a humanidade. Não sabemos por que isso tem de acontecer; essa é precisamente a obra de Eros.

(p.161) Visto que a cultura obedece a um ímpeto erótico interno que lhe ordena reunir os seres humanos numa massa intimamente coesa, essa meta só pode ser alcançada por meio de um reforço sempre crescente do sentimento de culpa. O que começou em relação ao pai se consuma em relação à massa.

O Mal-estar na Cultura
Sigmund Freud
Tradução do Alemão de Renato Zwick
191 páginas
L&PM. 

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