LIVRARIA ENTRELINHAS

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Galeria Panorâmica, Guaíba RS

domingo, 25 de julho de 2010

Coleção Biblioteca Borges

A Coleção Biblioteca Borges da Companhia da Letras é composta por 14 títulos: O Aleph; Antologia Pessoal; Discussão; Ensaio Autobiográfico; O Fazedor; Ficções; O Informe de Brodie; O Livro de Areia; O Livro dos Seres Imaginários; Outras Inquisições; O Outro O Mesmo; Poesia, Primeira Poesia e Prólogos com um Prólogo de Prólogos. Não é fácil ler Borges, mas é absolutamente gratificante. O mestre do conto presenteou-nos com verdadeiras obras-primas que permanecerão no mundo da literatura enquanto esta existir. Do mundo fantástico de Borges, cujas primeiras obras foram publicadas em 1920, escolhi O Aleph (1949) para retirar a amostra que publico a seguir.  A Biografia de Tadeo Isidoro Cruz é uma glosa de Martin Fierro com um resultado maravilhoso. Quem ainda não leu, aproveite agora.




Biografia de
Tadeo Isidoro Cruz
(1829-74)

I’m looking for the face I had
Before the world was made.
W.B. Yeats, The Winding Stair

No dia 6 de fevereiro de 1829, os montoneros que, já fustigados por Lavalle, marchavam do sul para se incorporar às divisões de López, fizeram alto numa estância cujo nome ignoravam, a três ou quatro léguas de Pergamino; por volta do amanhecer, um dos homens teve um pesadelo tenaz: na penumbra do galpão, o grito confuso acordou a mulher que dormia com ele. Ninguém sabe o que sonhou, pois no outro dia, às quatro, os montoneros foram desbaratados pela cavalaria de Suarez e a perseguição durou nove léguas, até os capinzais já lúgubres, e o homem pereceu numa sanga, com o crânio partido por um sabre das guerras do Peru e do Brasil. A mulher se chamava Isidora Cruz; o filho que teve recebeu o nome de Tadeo Isidoro.
Meu propósito não é repetir sua história. Dos dias e noites que a compõem, só me interessa uma noite; do restante só vou relatar o indispensável para se entender aquela noite. A aventura consta num livro insigne, ou seja, num livro cuja matéria pode ser tudo para todos (1 Coríntios 9,22), pois é capaz de quase inesgotáveis repetições, versões, perversões. Os que comentaram, e são muitos, a história de Tadeo Isidoro destacam a influência da planície sobre sua formação, mas gaúchos idênticos a ele nasceram e morreram nas ribeiras selvagens do Paraná e nas coxilhas uruguaias. Viveu, isso sim, num mundo de barbárie monótona. Quando, em 1974, morreu de uma varíola maligna, nunca vira uma montanha nem um bico de gás nem um moinho. Tampouco uma cidade. Em 1849, foi a Buenos Aires com uma tropa de propriedade de Francisco Xavier Acevedo, os tropeiros entraram na cidade para esvaziar os bolsos; Cruz receoso, não saiu de uma pousada na vizinhança dos currais. Ali passou muitos dias, taciturno, dormindo no chão, mateando, levantando ao alvorecer e se recolhendo à noitinha. Compreendeu (além das palavras e mesmo do entendimento) que a cidade nada tinha a ver com ele. Um dos peões, bêbado, zombou dele. Cruz não deu troco, mas nas noites da volta, junto ao fogo, o outro amiudou as zombarias, e então Cruz (que antes não demonstrava rancor nem mesmo contrariedade) o estatelou com uma punhalada. Fugitivo, teve de se resguardar num tremendal; noites mais tarde, o grito de uma chajá avisou-o de que a polícia o havia cercado. Experimentou a faca numa moita; para que não estorvassem a marcha a pé, tirou as esporas. Preferiu lutar a entregar-se. Foi ferido no antebraço, no ombro, na mão esquerda; feriu de morte os mais valentes da patrulha; quando o sangue correu entre seus dedos, lutou com mais coragem do que nunca; por volta do alvorecer, aturdido pela perda de sangue, foi desarmado. O exército desempenhava, então, uma função penal: Cruz foi destinado a um fortim da fronteira norte. Como soldado raso, participou das guerras civis; às vezes combateu por sua província natal, às vezes, contra. No dia 23 de janeiro de 1856, nas lagunas de Cardoso, foi um dos trinta cristãos que, sob o comando do sargento-mor Eusebio Laprida, lutaram contra duzentos índios. Naquela ação sofreu um ferimento de lança.
Na sua história obscura e valorosa são freqüentes os hiatos. Por volta de 1868 sabemos que estava de novo em Pergamino: Casado ou amancebado, pai de um filho, dono de uma fração de campo. Em 1869 foi nomeado sargento da polícia rural. Corrigira o passado; naquele tempo devia se considerar feliz, embora no fundo não o fosse. (Esperava-o, secreta no futuro, uma lúcida noite fundamental: a noite em que por fim viu seu próprio rosto, a noite em que por fim ouviu seu nome. Bem entendida, aquela noite esgota sua história; ou melhor, um instante daquela noite, um ato daquela noite, porque os atos são nosso símbolo.) Qualquer destino, por longo e complicado que seja, consta na realidade de um único momento; o momento em que o homem sabe para sempre quem é. Conta-se que Alexandre da Macedônia viu seu futuro de ferro refletido na fabulosa história de Aquiles; Carlos XII da Suécia, na de Alexandre. A Tadeo Isidoro Cruz, que não sabia ler, esse conhecimento não foi revelado num livro; viu-se a si mesmo num entrevero e num homem. Os fatos aconteceram assim:
Nos últimos dias do mês de junho de 1870, recebeu a ordem de prender um malfeitor que devia duas mortes à justiça. Trata-se de um desertor das forças que o coronel Benito machado comandava na fronteira sul; numa bebedeira assassinara um preto num prostíbulo; noutra, um habitante do distrito de Rojas; o informe acrescentava que procedia de Laguna Colorada. Naquele lugar, quarenta anos antes, os montoneros tinham se reunido para a desventura que entregou suas carnes aos corvos e aos cães; dali saiu Manuel Mesa, que foi executado na praça da Victória, enquanto os tambores rufavam para que não se ouvisse sua ira; dali saiu o desconhecido que gerou Cruz e morreu numa sanga, com o crânio partido por um sabre das batalhas do Perú e do Brasil. Cruz esquecera o nome do lugar o nome do lugar; com leve mas inexplicável inquietação reconheceu-o... O criminoso, acossado pelos soldados, foi tramando a cavalo um longo labirinto de idas e vindas; contudo foi por eles encurralado na noite de 12 de julho. Refugiara-se num capinzal. A treva era quase indecifrável; Cruz e os seus, cautelosos e a pé, avançaram rumo as moitas em cujo fundo trêmulo espreitava ou dormia o homem secreto; Gritou uma chajá; Tadeo Isidoro Cruz teve a impressão de já ter vivido aquele momento. O criminoso saiu do abrigo para lutar com eles. Cruz o entreviu, terrível; a cabeleira crescida e a barba cinza pareciam comer seu rosto. Um motivo notório me impede de relatar a luta. Basta lembrar que o desertor feriu de morte ou matou vários dos homens de Cruz. Este enquanto combatia na escuridão (enquanto seu corpo combatia na escuridão), começou a compreender. Compreendeu que um destino não é melhor que outro, mas que todo homem deve acatar o que traz dentro de si. Compreendeu que as divisas e o uniforme o estorvavam. Compreendeu que o outro era ele. Amanhecia na planície desmesurada; Cruz jogou no chão o quepe, gritou que não ia consentir o crime de que matassem um valente e se pôs a lutar contra os soldados, junto do desertor Martin Fierro.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

As mulheres do Carpinejar

Mulher perdigueira, o novo livro do Fabrício Carpinejar é ótimo. Em mais de uma centena de crônicas deliciosas sobre relacionamentos e o cotidiano, ele vasculha o dia a dia de seus personagens e dele próprio com olhar crítico, bem humorado, e poético.  Quem duvida que haja poesia no humor do fodido, na cueca pendurada no box, e no velho que fuma as mulheres? O Carpinejar nos leva a passear pelo parque das relações e sentimentos como se fossemos cãezinhos conduzidos pela coleira. Entre uma fungada nos pés de alguém e uma mijada num poste, lemos textos como este:

Livremente
Esperava o sol na casa de meu irmão Miguel em São Sepé, cidadezinha acolhedora de 25 mil habitantes no centro do RS. Nos fundos do seu quintal, sentei numa pedra enorme, esquecida por um guindaste ou um dinossauro. Contornava com a boca o caroço da maçã. Raspava as reentrâncias, brincando em mordiscar a semente com a língua.
Os pássaros davam cambalhotas e perseguiam o que parecia ser, em primeiro momento, uma borboleta negra, uma bruxa, mas logo se mostrou um morcego. Espantoso: aves e morcegos convivendo como amigos de jardim, colegas da escola do cisco. Dia e noite entrosados, escuro e luz criando cumplicidade dos galhos e correndo na madrugada ainda sombria. Esguichos e piares se tocavam e se ajudavam na escada das sombras. O flamboyant meditava ao meu lado, com as raízes expostas (ou seriam pernas dobradas?). Não duvido que a árvore estivesse abrindo suas coxas de propósito.
Espantoso mesmo era um córrego que descia a lomba do pátio. Demorei a definir sua natureza. Um filete protegido por tijolos, que cortava o terreno na diagonal e sumia pelas frestas do muro. Um barulho de calha no chão, suave e despretensioso.
- Miguel, você tem um córrego?
- Não, é da cidade – respondeu e mudou de assunto.
A corrente seguia para o vizinho adiante que migrava ao vizinho seguinte e atravessava a rua José Cândido Ferreira. Um ziguezague estranho e encantador, não parando em poços artesianos. Ninguém impediu o córrego de completar o passeio pelo morro. As casas foram construídas sem modificar seu desenho sinuoso.
Ele atravessa paredes e escarpas com suas pernas de vento. Nenhum dos moradores se projetou dono do córrego e o amarrou à sua residência. Respeitam a sua vontade. Não o domesticaram, não o reduziram a um cão numa coleira. Não o balearam como invasor, não atiraram em suas costas, não discutiram sua guarda na justiça. Não interromperam o corredor de ervas e cascalhos, não cercaram o tombo da água. Deixaram-no ir, desimpedindo o caminho. Recebe uma preferência de pedestre, uma licença de gestante.
Se fosse numa outra cidade, alguém declararia que o córrego é seu. Em São Sepé, ele é de ninguém. Um animal sussurrante, misturando-se à grama e ao barro, serpeando para se avolumar lá longe numa cascata.
Os habitantes não diminuem o valor daquilo que não enxergam. Ter é deixar ir.
O córrego não cansa de voltar.

Mulher Perdigueira
Fabrício Carpinejar
Bertrand Brasil

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