LIVRARIA ENTRELINHAS

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Galeria Panorâmica, Guaíba RS

sábado, 1 de agosto de 2009

Antes de Nascer o Mundo




Antes de Nascer o Mundo na verdade começa depois que o mundo acaba. Um pai (Silvestre Vitalício) demente e misógino, refugia-se num lugar longe de tudo junto com os dois filhos, o cunhado e um serviçal (um militar que passa a ser uma espécie de ministro da guerra do lugar). Na entrada ele instala uma cruz com os dizeres “Ele Voltará” (pois tinha a firme convicção de que Jesus voltaria para lhe pedir desculpas) e realiza uma cerimônia de rebatismo dos moradores e do lugar que passa a chamar-se Jerusalém (A terra onde Jesus haveria de se descrucificar). Jerusalém tornou-se o lar do que restou da humanidade – Silvestre Vitalício, os dois filhos, o tio Aproximado (que é o único que mantém contato com a civilização, trazendo-lhes roupas e mantimentos) o militar e a jumenta Jezibela, “tão humana que afogava os devaneios sexuais” do velho Vitalício que a visitava uma vez por mês vestido a caráter e munido de um buquê de flores.
Quem narra a história é Mwanito o filho mais novo que tinha menos de três anos quando chegou a Jerusalém. Escondido do pai Ntuzi, o irmão mais velho, lhe ensina a ler nas caixas de munição de um paiol abandonado e escreve suas primeiras palavras sobre as cartas de baralho. Ele cresceu sem nunca ter visto ninguém além dos moradores de Jerusalém “A primeira vez que vi uma mulher tinha onze anos e me surpreendi subitamente tão desarmado que desabei em lágrimas”.
Mwanito nos fala do militar Zacarias que nas noites sem luar disparava sua espingarda para o alto. – O que faço? Estou a fazer estrelas. Do pai: - Venha, meu filho, venha me ajudar a ficar calado. E depois inspirava fundo e dizia: - Este é o silêncio mais bonito que já escutei, lhe agradeço Mwanito. Ele fala da mãe com o irmão: - “Não me lembro da mamã. Eu não consigo lembrar-me dela”. Os mortos não morrem quando deixam de viver, mas quando os votamos ao esquecimento. – Agora, meu mano, é que somos verdadeiramente órfãos.
A princípio parece a história de alguém que resolveu “apagar o mundo” por não suportar a realidade. Aos poucos vamos desvendando-a. E quem nos ajuda é uma nova personagem, a portuguesa Marta, que aparece neste mundo no meio do nada a procura do amor perdido: - “Escrevo como as aves redigem o seu vôo: sem papel, sem caligrafia, apenas com luz e saudade. Palavras que, sendo minhas não moram nunca em mim. Escrevo sem ter nada que dizer. Por que não sei o que te dizer do que fomos. E nada tenho pra te dizer do que seremos. Porque sou como os habitantes de Jerusalém: Não tenho saudade e não tenho memória”.
O texto envolvente e belo de Mia Couto também fala da guerra e dos Moçambicanos que escolheram pelo seu esquecimento. Leva-nos por este universo de sentimentos e personagens que buscam a verdade, a felicidade e a si próprios. “O mundo termina quando já não somos capazes de amá-lo” e “A loucura nem sempre é uma doença. Às vezes é um ato de Coragem”.

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