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sábado, 20 de fevereiro de 2010

Explicação dos Pássaros



Aproveitei o feriadão de carnaval na Vila Suzana em Canela para ler “Explicação dos Pássaros” do português António Lobo Antunes, aquele do “Os Cús de Judas” (O Apocalipse now dos Portugueses em Angola). Ao contrário deste último “Explicação dos Pássaros” é muito bem escrito. Trabalho de mestre. Não é um livro fácil de ler, primeiro por ser em português de Portugal, segundo porque o autor usa recursos não muito usuais: O personagem principal, Rui S. faz-se às vezes de narrador, e são os seus pensamentos que nos conduzem por todo livro. Aos poucos acostuma e a leitura flui. A história, assim como a Crônica de Uma Morte Anunciada do Gabriel Garcia Marques, narra os últimos dias do personagem cuja relação com o pai deteriorou-se na medida em que ele não seguiu-lhe em suas ambições profissionais.
                                     “Um dia, em miúdo, ao fim da tarde, achávamo-nos na quinta e um bando de pássaros levantou vôo do castanheiro do poço na direção da mancha da mata, azulada pelo início da noite. As asas batiam num ruído de folhas agitadas ao vento, folhas miúdas, fininhas, múltiplas, de dicionário, eu estava de mão dada contigo e pedi-te de repente Explica-me os pássaros...” ...” Assim sem mais nada. Explica-me os pássaros, um pedido embaraçoso para um homem de negócios. Mas tu sorriste e disseste-me que os ossos deles eram feitos de espuma da praia , que se alimentavam das migalhas do vento e que quando morriam flutuavam de costas no ar, de olhos fechados como as velhas na comunhão."

                                       A narrativa não segue uma linha cronologia e mistura cenas atuais, com passado, lembranças, memórias e planos futuros. Rui S. vive uma crise permanente e decide acabar com o segundo casamento. O casal segue até uma pousada na beira do rio.

De manhã, no bairro nem sequer havia pombos, só senhoras de idade com as redes de plástico das compras a caminho de casa, só edifícios desbotados e feios, só uma melancolia sem esperança no ar. Pensei, se ao menos se visse o rio pela janela, se ao menos uma nesga de água entrasse nesta sala, e depois, sabe, habitava com aquela mulher ordinária e sacudida, despenteada, a apagar cigarro após cigarro no cinzeiro de pau, a combater lá dentro com os tachos, a considerá-lo, acho eu, numa amenidade sem afecto e o pateta sem perceber que ela não gostava dele, que o desprezava, que se achava pronta a trocá-lo pelo primeiro comunista barbudo que aparecesse, porque quanto a essa, meu Deus, não sobejavam dúvidas nenhumas que seria o pé-descalço no poder, ensinava também na Faculdade mas só os ateus e os doidos lhe freqüentavam as aulas...”

“O pai já não se interessa pelos pássaros, acusei-o eu, só se preocupa com números, e firmas, e letras, e acções, e notários, e coisas dessas, vá lá acima ao sótão ver apodrecer os álbuns, ver-nos apodrecer a nós...”

                                      É na beira do rio que aos poucos Rui S. chega ao desfecho de sua própria história. Surge então o circo onde entre a platéia, e artistas estão todos os personagens que fizeram parte da sua vida. “Desabotoou o casaco do pijama e lá estava o seu arredondado corpo sem arestas, tombando em largas pregas fofas pelos ossos abaixo, a rosa hirsuta do púbis, os joelhos convergentes, estrábicos, a recriminarem-se , irados, um ao outro: o anão, de dragonas, dobrou-se solenemente numa vênia e apontou-me com uma luva enorme:

- Senhoras e senhores, meninas e meninos, respeitável assistência, eis-nos prestes a alcançar o momento culminante do nosso espetáculo de hoje – urrou ele dando cambalhotas veementes ao redor da pista – O Grande Circo Monumental Garibaldi, oferece-vos ao vivo um número único, não televisionado, do suicídio do seu principal artista...”

Deste ponto em diante até o final, fica impossível parar de ler .
Explicação dos Pássaros, António Lobo Antunes, editora Alfaguara.


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